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  POLÍTICA   O desmoronar de uma crença
Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Liga-se a televisão, passa-se os olhos pelas primeiras páginas dos jornais e salta à vista a crise financeira que abala os Estados Unidos da América. É o subprime a ruir com estrondo e estilhaços.

Durante muitos anos, muitos dos que agora se mostram perplexos fizeram ouvidos de mercador aos que denunciando o embuste das teses neoliberais avisavam para a catástrofe iminente.

À direita e à esquerda, políticos e economistas sérios recusando embarcar no logro desmontaram os seus fundamentos, a irracionalidade dos seus pressupostos, o jogo de ilusões de vender por preço especulativo os imóveis, de conceder crédito fácil, barato e rápido que depois era revendido e revendido e revendido, a gestores de fundos principescamente pagos.

Mas ao lado desse punhado de cidadãos honestos e de técnicos probos estavam outros que se deixaram influenciar pelas teorias de Milton Freedman e dos Chicago Boys, cuja experiência mais dolorosa é o Chile de Pinochet.

Eles infiltraram-se nos partidos social-democratas europeus, alcançaram lugares proeminentes e são os responsáveis por desvios da sua matriz doutrinária.

Eles falavam de cátedra e as suas opiniões foram cunhadas em documentos importantes que moldam e influenciam a vida dos povos que tiveram a desdita de os escolher politicamente na esperança de partilharem a felicidade apregoada.

Eles nunca questionavam a veracidade e os fundamentos do que lhe chegava do outro lado do Atlântico através de instituições que tomaram, do FMI ao Banco Mundial e a OCDE. Mais, eles tomaram conta das entidades reguladoras, dos gabinetes de auditoria e contabilidade que passaram a respeitar as regras e os critérios dos grandes e históricos impérios americanos da finança, como a seguradora AIG e os bancos de investimento Goldman Sachs e Morgan Stanley. O que qualquer deles dissesse era um dogma e quem não respeitasse o dogma era condenado pelos novos inquisidores do pensamento único.

Portugal, com uma economia cada vez mais entrelaçada com a União Europeia e os EUA, hipotecou a sua capacidade de desenvolvimento quando aderiu à moeda única, ao euro. Mas mais tolhido ficou quando assinou sem contestar e sem pestanejar os estatutos do Banco Central Europeu, porque eles são um exemplo das teses neoliberais. O que nos está a acontecer e o que está para vir resulta da nossa impossibilidade de reagir.

Sabe-se agora que quem aprovou os estatutos do BCE aceitou que este banco vital para as economias dos estados membros só está vocacionado para gerir os preços, para gerir a inflação. De fora ficam variáveis económicas fundamentais para o desenvolvimento da nossa economia, como sejam o crescimento e o emprego.

O que nos tem acontecido, o empobrecimento, o fecho de serviços públicos, o sobre endividamentos das famílias e das empresas, o desemprego resulta da aplicação prática das teorias neoliberais: reduzir custos, reduzir sempre mais custos para apresentar resultados rápidos e as acções e fundos que estimulem o jogo bolsista.

Mas ao contrário do que dizem alguns com culpas no cartório, nada disto é inevitável. É possível outra política económica. É o que alguns andam há anos a dizer. Oiçam o que eles dizem e corram com os vendedores de ilusões.

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