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Crónica do Teatro Popular Mirandês
Segunda-feira, Julho 28, 2008

Na Revista Impressões (Ano VII, nº 8, Maio de 2004, pp. 12-13) e também na Revista ELO, do Centro de Formação Francisco de Holanda (número 13, 2005, pp. 377-391) tive eu oportunidade de escrever algumas linhas sobre o Teatro Popular Mirandês (TPM). Por isso, alguns leitores do Reflexo terão já tido oportunidade de ler algo sobre esta peculiar manifestação cultural. Não poderá ser numa crónica que damos conta do que é o TPM. Por isso, pretendo apenas deixar algumas, breves, anotações sobre estas representações teatrais que (ainda) têm lugar no extremo nordeste português.

Diga-se, desde já, que algumas destas manifestações, como as Trovas de Carnaval, estão intimamente relacionadas com outras, de cariz para-teatral, algumas das quais, estão igualmente vivas na região de Caldas das Taipas, como o “teatro” que se faz por alturas do Carnaval no chamado Enterro do Arturinho. A este propósito recordo igualmente um pequeno texto, feito a partir de recolhas dos meus alunos da Escola Secundária de Caldas das Taipas, sobre a tradição oral nessa região (“O saber do povo: reflexões sobre os ditos e provérbios de São Martinho” in Trigal, Ano VI, nº 16, p. 4). A grande conclusão é que estamos em presença de uma riqueza etnográfica e cultural que, infelizmente, está a desaparecer e à qual ainda não foi dado o devido valor.

Pois bem, o assunto desta crónica é o Teatro popular Mirandês. A razão principal é que, no quadro das minhas investigações, foi este um dos últimos temas que estudei e tratei, estando agora disponíveis, também on-line, os textos recolhidos pelo Dr. António Maria Mourinho (www.ceamm.no.sapo.pt). Por outro lado, o TPM, embora seja uma manifestação que ganhou raízes próprias na Terra de Miranda, e daí o seu nome, estabelece relações múltiplas com outras manifestações, com outros textos e com outras culturas, interessando, por isso, a um público mais vasto que não apenas os mirandeses. Recorde-se, também na região do Minho, o Auto de Floripes, representado na localidade das Neves (Barroselas, Viana do Castelo), cujo texto, com outro título e com outras variantes, é igualmente representado quer na Terra de Miranda quer no longínquo São Tomé.

Muitos são os temas do TPM que podem interessar aos investigadores. Alguns estão, obviamente, para lá dos próprios textos, relacionados com as representações, os mitos, os valores culturais, as preocupações sociais, os usos, os costumes, os trajos, as tradições, os pormenores da vida e da história local. Para além disso, a língua (ou línguas, pois aqui encontramos a língua mirandesa, mas também o português e o castelhano) as relações dialógicas, intertextuais e interculturais com outros textos, literários ou não, são assuntos de verdadeiro interesse. Trata-se de temas muito vasto mas de importância fundamental para a compreensão do valor da cultura tradicional enquanto espaço semiótico, no qual são concebidas e compreendidas as mensagens geradas por um texto e a forma como se reproduzem dentro de outro texto. Por exemplo, a lenda dos sete filhos, nascido do mesmo parto, que encontramos no Auto dos Sete Infantes de Lara, está igualmente presente na lenda de Maria Mantela, registada na região de Chaves, que terá tido sete filhos de um só parto. Como, na opinião dela, ter mais de um filho significaria mais de um pai, mandou matar seis. Salvos pelo pai, o último a morrer, enterrado junto à mãe, deixou este epitáfio:

Aqui jaz Maria Mantela
Com sete filhos ao redor dela.
Curiosa é também a alusão a outras histórias, temas ou mesmo personagens não do Auto que se representa mas de outro. Por exemplo em Roberto do Diabo diz um dos personagens:

O melhor era voltar
Para trás senhor ministro
Nada bem me cheira isto
Ainda agora vi Roberto,
Parecia Ferrabraz
E se o torno a ver
Galgo a fugir para trás.

“Ferrabraz” é o nome do bálsamo milagroso que, segundo a tradição, foi usado para o enterro de Cristo e recuperado por Carlos Magno, ou melhor, por um dos seus cavaleiros, Oliveiros, que numa fabulosa cruzada o recuperou das mãos de Ferrabrás, um sarraceno, filho de um emir, que o tinha em seu poder. Ora este personagem faz parte da História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França (o tal representado nas Neves) e não da Vida de Roberto do Diabo.

Mas a referência a este bálsamo aparece-nos igualmente no Dom Quixote, de Cervantes, quando o cavaleiro andante diz que “é um bálsamo cuja receita tenho na memória, com o qual não há que temer à morte, nem que pensar morrer de ferida alguma” (Cap. X). Mais à frente, no capítulo XVII, na refrega de mais uma das suas míticas batalhas contra um castelo imaginário em que Sancho Pança fica bastante maltratado, consola-o o cavaleiro dizendo-lhe: “Não te dê pena, amigo (…) que eu te farei agora o bálsamo precioso, com que sararemos num abrir e fechar de olhos.” Mas o bálsamo que, segundo o pedido de D. Quixote, deveria ser preparado com “um pouco de azeite, vinho, sal e rosmaninho” não era mais que mistela fervida, que depois de benzida com oitenta pai-nossos e outras tantas ave-marias, salvés e credos, ele bebeu provocando-lhe os mais horríveis vómitos e suores. Contudo, depois de três horas de sono, acordou aliviado e convencido de que “acertara com o bálsamo de Ferrabrás e que com aquele remédio poderia acometer doravante sem temor algum quaisquer ruínas, batalhas e pendências, por perigosas que fossem.”

Naturalmente que o TPM não é nem o bálsamo de Ferrabrás, nem a pedra filosofal. Mas o seu conhecimento pode revelar-nos, estou certo disso, alguns dos segredos que se escondem por entre os dédalos dos seus versos, tantas vezes revelados nas praças, nos terreiros e nos tablados mirandeses. E pode ajudar-nos também a olhar outras manifestações sem a altivez com que normalmente a chamada cultura erudita olha para a cultura popular. É que a necessidade do maravilhoso, a tendência natural para a libertação das leis físicas, características desta literatura, não pertencem a nenhuma dessas culturas. São características de todo o ser humano, nas suas horas de criança. E bem triste de quem não tiver esses momentos.

Miranda do Douro, 27 de Junho de 2008