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Crónica da achologia
Quarta-feira, Abril 23, 2008

A paternidade da descoberta não é minha. Em rigor nem sei a quem se deve atribuir a patente da invenção, sendo certo que as raízes desta “ciência” são vigorosas e profundas, com uma força que lhe advém da prática quotidiana, da consistência e da coerência num espaço-tempo que é apenas nosso.

No esforço de afirmação nacional procurou-se na palavra saudade − pelo que ela tem de genuinamente lusitano, para uns, ou por ser intraduzível, para outros − um dos fundamentos da nossa identidade. Mas nem a Teixeira de Pascoaes nem a outros saudosistas ocorreu que a achologia era mais característica da alma nacional do que a saudade. E, na verdade, assim é. Por isso, não se julgue (nem se ache) que a achologia é algo recente na história Portuguesa. Nem por sombras. A nossa História e a nossa alma seriam incompreensíveis sem o contributo, sem a luz orientadora da achologia. Outros povos e outras nações tiveram grandes descobertas, grandes feitos, grandes escolas. Nós temos a achologia que nos guiou e nos guia no desígnio supremo − embora oculto, pois aqui está o nosso messianismo − de virmos a ser um grande povo, uma grande Nação, um verdadeiro Império. Foi assim que descobrimos o Brasil. Perdão. Foi assim que achámos o Brasil, tal como o descreve Pêro Vaz de Caminha na sua bem-nomeada “Carta de achamento”:

Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que − para o bem contar e falar – o saiba pior que todos fazer!

Como é que os estrangeiros nos vão entender? Impossível. Veja-se a complexidade que significa a simples tradução de uma frase bem portuguesa: O que é que achas?

Independentemente da sintaxe, a questão do verbo é a mais difícil mas também a mais distintiva. Um castelhano empregará, quase de certeza, o verbo “pensar”. Um francês fará o mesmo com o seu “penser”. Mas só nós sabemos que não é a mesma coisa. Eu não quero saber o que pensas, quero saber o que achas.

Um exemplo clássico, explicativo dos fundamentos da achologia é dado pela história, verdadeira, sem dúvida, do viajante perdido numa qualquer estrada, terra ou rua portuguesa. Ao aproximar-se da primeira alma humana pergunta, logicamente, o caminho ou a forma de chegar ao local do seu destino. A resposta cai que nem um balde de água fria: “Desculpe, não sei, não conheço, nunca ouvi falar”.

Em qualquer lugar do mundo isso levaria o nosso viandante perdido a procurar outra fonte de informação. Em Portugal não. O informante, solícito, embora não saiba, não conheça nem nunca tenha ouvido falar, sempre vai ajudando (??): “Mas olhe que eu acho que é por ali”.

Outra variante regional do génio lusitano é o conhecido “penso eu de que”. Este dequeísmo não inaugura nem augura nenhuma estrutura racional. Veja-se que, do ponto de vista estrutural, sintáctico, ele é usado sempre no final da frase. Quem ouve sabe que o locutor não pensa nem pensou. “Pensar de que”, não é a mesma coisa que “pensar”. É uma espécie de “achar de que” travestido de roupagem racionalista, colocado estrategicamente no final da frase, com o objectivo pragmático de acantonar o ouvinte num espaço o mais diminuto possível, de forma a não lhe deixar qualquer margem de manobra nem possibilidade de reacção. Se ele “pensa de que” é porque sim. Pronto. Nada a fazer.

Outra manifestação deste espírito nacional é o “treinador de bancada”. A expressão, em sentido estrito, remete-nos para aquele adepto que, legitimamente, vai assistir ao seu joguito de futebol e, a partir da bancada, tem o direito de opinar sobre a equipa, a estratégia, as contratações, a arbitragem e tudo o mais que a propósito (achar que) vier. Os treinadores de bancada são muito mais do que isso. Estão presentes nas manifestações desportivas, é certo, mas são omnipresentes em bancos de jardim, nas mesas de café, em espaços públicos e privados, em todas as áreas, incluindo a da governação.

Quem não sabe, quem não tem forma de saber, quem não possui os conhecimentos suficientes para compreender e interpretar a realidade que o rodeia, acha. Poderíamos pensar que a achologia está intimamente ligada com a falta de instrução (refiro-me, exclusivamente, aos níveis de escolaridade) do povo português. Puro engano. A achologia é transversal a toda a sociedade portuguesa. As recentes reformas, em vários domínios da governação, são disso exemplo. A muitos pareceria mais judicioso que tais medidas fossem experimentadas antes de serem postas em prática. Aos governantes não. Acharam que assim é que estava bem e, por isso, trataram de as implementar sem antes as experimentar, sem medir nem analisar as suas reais consequências. Os resultados começam a estar à vista.

As verdadeiras reformas, nomeadamente no ensino, serão aquelas que implementem uma revolução na nossa estrutura mental. Que nos ensinem a pensar. Que empurrem para bem longe as barreiras da achologia e criem espaço para a reflexão, para a verdadeira inteligência que é, segundo o primado de Francis Bacon, aquela capaz de criar mais oportunidades do que as existentes. Ou seja, a reforma capaz de nos tirar do atoleiro de pobreza, de atavismo e de impotência em que vivemos.