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  POLÍTICA   O Real e a percepção do Real
Quarta-feira, Abril 23, 2008

Tirando partido de uma visita de médico ao Vale do Ave e perante uma plateia maioritariamente constituída por industriais e quadros técnicos do sector têxtil, o primeiro-ministro anunciou o fim da crise orçamental e, mais importante do que isso, garantiu que agora os factores que alegadamente lhe deram origem estão sob controlo, pelo que, prometeu, é chegado o tempo de a economia orçamental retribuir à economia real a ajuda por esta prestada.

As televisões não mostraram mas quem esteve lá e ouviu pode confirmar os sorrisos amarelos dos que por dever de ofício ou por conveniência assistiram ao anúncio do último modelo de plano estratégico para a indústria têxtil. Na verdade, bem pode pregar Frei Tomás que a vida está melhor que a vida não passa a estar melhor por uma qualquer operação de marketing.

É que as empresas, têxteis mas não só, vivem momentos de particular gravidade devido a perda de competitividade, por apreciação excessiva do euro face ao dólar americano, ao emagrecimento das margens de lucro, por pressão de agentes, clientes e consumidores, e à política fiscal, com impostos elevados, pagamentos especiais por conta e pagamentos por conta, o que causa crescentes dificuldades de tesouraria.

O retrato do sector têxtil apresentado na visita não podia ser mais negro: menos empresas em actividade, mais desempregados, mais trabalho precário. A ele podemos acrescentar sem receio de o futuro nos desmentir, mais empresas que vão encerrar as portas e mais mulheres e homens despedidos, porque os problemas da economia real, ao contrário do que foi dito, não foram resolvidos e até se agravaram.

É o caso, por exemplo, da queda do consumo privado e do crescimento do endividamento das famílias. Durante muito tempo, o crédito ao consumo foi usado como expediente para compensar os baixos salários, talvez na esperança de a vida melhorar e assim se honrarem os compromissos. Infelizmente a vida não melhorou para os mais necessitados (melhorou e muito para os donos de grandes fortunas!) e a prová-lo está o espantoso número de famílias incapaz de cumprir com os pagamentos às entidades bancárias.

Sem poder de compra, sem saber se no dia seguinte está empregado o se está no desemprego, ao português que vive do trabalho sobra cada vez mais mês quando o rendimento se esfuma por entre comer, pagar transportes, livros para as crianças, infantário, luz, água e o carregamento do telemóvel.

Enquanto o cidadão comum sofre, a banca, as seguradoras, as empresas do PSI20, as gasolineiras acumulam lucros brutais e infames, sempre maiores do que no ano anterior, muito dele à custa da morte lenta de milhares de micro e pequenas indústrias, muito dele à custa da fome e da pobreza de milhões de portugueses.

Tal como em 2005 decretou a existência da crise, apoiado em pareceres pagos com cargos muito bem remunerados e com indemnizações fabulosas, o primeiro-ministro decretou agora o fim dela. Entretanto a vida real continua.

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