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“Quem espera, desepera!”
Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

«Quem espera, desespera!» e, defeito de formação profissional, gosto da pontualidade mais do que “Britânica”.

Quem já «esperou» por quem não chega, já passou pelos vários estados de espírito: desassossego, raiva, desespero… a que se associam reacções físicas mais ou menos perceptíveis para os outros. Também eu, mero exemplo comum a todos, já me vi nesses «assados» e reagi como todos reagem, penso eu, dentro de uns certos limites impostos pelas regras da boa educação.

A uma irritação surda que se vai manifestando (abanar o pé, tocar piano com os dedos, cruzar e descruzar as pernas) segue-se uma agitação mais visível (andar agitado de um lado para o outro como um leão na jaula, falar com os botões que nos faz fazer papel de idiotas, gesticular – os mais descontrolados, …), que mais? Bem, pessoalmente, se puder descarregar, ou, à moda daqui, se puder soltar a burra, solto. Só que nem sempre isso é possível! Em muitas ocasiões seria ridículo e noutras pouco abonatório e um espectáculo assaz incompreensível para os assistentes casuais!!!

E… «o contar até dez» dá mesmo resultado. Muito pausadamente… e a respirar profundamente, vagarosamente, a lengalenga começa muito, muito lentamente: um… (inspira!), dois… (expira!), três… (inspira!), quatro… (expira!), cinco… (inspira!), seis… (expira!), sete… (inspira!), oito… (expira!), nove… (inspira!), dez… (expira!)… Pouco a pouco, a calma instala-se no corpo físico e vai forçando a entrada no psíquico. É sempre assim!

Porém, se tal não acontece, faço como agora. Apanho papel e lápis (ou esferográfica ou marcador!) e escrevo o que me vem à cabeça. Desabafo com o papel, o meu grande confidente mudo e cómodo, porque ouve tudo e, tenha ou não razão, não retruca. Cala! E quem cala, consente.

Desta forma, conforme a onda do momento, que nada tem a ver com a frequência modelada, uma outra emissora entra em funcionamento… a imaginação.

Com efeito é em momentos de grande stress que muitas vezes se cria. É assim como que um arrumar as ideias, os pensamentos, as vivências, as experiências, as sensações, o real e o imaginário, o fantástico, o provável e o improvável, catalogando tudo muito bem e colocando os ficheiros em ordem.

Logo depois surge um grande vácuo, provocado pelo esvaziamento de toda a actividade criadora que, entretanto, recomeça o processo de enchimento. E ao apaziguamento interior corresponde uma grande agitação exterior e as palavras soltam o seu grito de guerra quando tomam posição de sentido na folha, soldados prestes a entrar em batalha e lutar até à exaustão ainda que por causas perdidas e correndo sempre o risco de morte por borracha, corrector ou «delete» no computador.

Até a morte das palavras é ditada de formas diferentes conforme se utilizem ou não as novas tecnologias de informação e comunicação – as TIC. «Tic-Tac» é o relógio que orienta o tempo e a vida. Há que realmente despertar para as Novas Tecnologias em todos os ramos do saber, pois elas vão ser o futuro. Cada vez mais o lápis e o papel serão relegados para segundo plano por obsoletos, queiramos ou não, concordemos ou não.

Eu não concordo, porque gosto desta actividade artesanal do tipo «escreve, risca, emenda, faz chamada e acrescenta, explica, transforma», pois só assim usufruo do prazer de escrever. A máquina, mais exactamente, o computador tem o condão de me bloquear, principalmente quando ela própria (a máquina!) bloqueia e teima em certas situações inexplicáveis! Erro humano! dizem. Sem dúvida, o pior erro é depender das máquinas! O homem está a ficar «calculodependente» e «computodependente»… para já não falar de muitas outras milhentas dependências que invadem o ainda (??) domínio do Homem. Não estaremos a aproximar-nos perigosamente dos filmes de ficção científica que preconizam o domínio do homem pela máquina por ele criada? Leonardo Da Vinci e Júlio Verne foram considerados visionários no tempo em que viveram e ambos estudaram e inventaram máquinas demasiado avançadas para o seu tempo. Constituíram a ficção científica das épocas em que viveram! O Allien, o ET, a Nave Orion, a Base Lunar Alfa, o computador Max, o carro Knight estarão assim tão longe de nós?

O olhar passeia-se distraidamente no mostrador azul do relógio de ponteiros luminosos. Quarenta e cinco minutos de atraso! Irra! Arre! Apre! Interjeições por excelência da irritação crescente que invade quem espera, mas uma outra há, cuja inicial é comum ao nome Portugal, que por ser calão é bem utilizada. Uma questão aliás bem curiosa: Porque é que o palavrão é mais utilizado em situações de grande stress, dor, irritação,… mesmo por quem não o utiliza no seu quotidiano, do que as interjeiçõezitas inofensivas que estão igualmente à sua disposição?

Assustados talvez pelo mostrador azul do relógio que impiedosamente denuncia cinquenta e cinco minutos, os «soldados» devem ter recolhido à caserna, porque repentinamente, como uma idiota, olho para a folha do bloco que viaja comigo na carteira para estas emergências e nada mais sai. Bloqueio completo.

Retomo a tarefa de tamborilar com os dedos no tampo de vidro da mesa do café, quando um «Olá, viva! Não estou muito atrasada, pois não? Nem calculas o que me aconteceu!» Mentalmente, fuzilo-a, enquanto a minha boca apenas balbucia: «Não, que ideia! Só estou aqui há uma hora!»

É a minha irmã. Que se há-de fazer?

Quem esperavam que fosse?

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