À pancada não me dobram
Quinta-feira, Agosto 2, 2001

O Contacto com a juventude não nos deixa envelhecer ou, pelo menos, o envelhecimento pro-cessa-se de modo diferente. Sendo a juventude a representação do futuro, então, o professor é um ser privilegiado porque está em permanente contacto com ele.
O passado e o futuro juntam-se assim no jovem do hoje ontem criança, amanhã adulto a ingressar na vida activa e profissional… ecos de um passado e lampejos de um futuro nem sempre promissor.
No outro dia, escrevia um relatório sobre Reorganização Curricular, fui visitada por um fantasma do passado que me trazia recordações perturbadoras, talvez porque nesse dia também lera a comunicação de um professor ao D.T. acerca de um aluno a quem pretendia levantar um Processo Disciplinar.
Tinha nome, rosto até. O Óscar possuía uns expressivos olhos castanhos insubordinados, traço dominante da face morena, a que uns cabelos negros lisos e em constante desalinho ajudavam a emprestar o ar de revolta com o mundo e a vida.
Não era fácil lidar com o Óscar, nunca fora. Abandonado pela mãe que fugira e de quem mal se lembrava e pelo pai que não tinha paradeiro certo, vivia desde a idade escolar com os avós paternos que o adoravam sem o conseguirem dominar. Fizera o 1º ciclo com alguma facilidade, apenas uma reprovação no ano em que tudo acontecera!, mas depois tinha descarrilado de vez e as reprovações tinham-se sucedido.
Estava no 2º ano do 2º ciclo com 16 anos. Nessa altura, já lá vão mais de vinte anos!, o ciclo preparatório constituía a escolaridade obrigatória (muito contestada e não aceite pela generalidade da população!) e os jovens podiam trabalhar com 14 anos.
O Óscar estava, pois, fora da escolaridade obrigatória e era meu aluno a Língua Portuguesa. Muitas vezes me recordou a figura de «Constantino, guardador de vacas e de sonhos» de Alves Redol, que dizia alto e bom som «À pancada não me dobram!»
A agressão física nunca fez parte do meu procedimento pedagógico, nem então nem agora, mas como não tenho sangue de barata e sou educadora, às vezes escapa o «tabefe pedagógico» que, na hora H, vale por mil sermões, quantas vezes não ouvidos!
Como ia dizendo, nunca fui fã da «pancada», porém, há muitos modos de a definir em educação e nem todos se referem ao contacto físico, que dói momentaneamente, quando o outro, o psicológico, pode doer por toda a vida.
O Óscar estava pela terceira vez no 6º ano e eu era a directora de turma. Naquele dia tinha marcada a hora de atendimento que quase nunca foi utilizada pelos pais, já que nessa altura os encarregados de educação ainda apareciam menos do que hoje. Tudo aconteceu por mero acaso. Enquanto aguardava a hipotética chegada de algum, em conversa com uma colega que estava «em furo», soube do que acontecera num Conselho de Turma, durante a avaliação final, no ano anterior. «Olha, Teresa, só faltou que andassem todos à batatada! Em quinze anos de carreira, nunca me vi noutra!»
A Ana era uma professora maravilhosa, muito criativa e adorada pelos alunos, pois, apesar de exigente, explicava a História como ninguém. Quantas vezes me rira com as cenas que fazia na sala dos professores sempre que se entusiasmava com um assunto e começava a imaginar-se um cavaleiro, um cruzado, em busca do Santo Graal ou um rei no campo de batalha,… Nunca personificava uma heroína; era sempre um herói. Acérrima defensora das mulheres, feminista a mil por cento, não conseguia engolir a discriminação a que sempre haviam sido sujeitas as mulheres ao longo da História e costumava dizer: «Ainda bem que nasci no século XX e num país ocidental!»
Revejo a Ana tal como estava nesse dia de meados de Novembro, com a chuva a cair em bátegas alternando com momentos de sol radioso de um Verão de S. Martinho que se fazia já anunciar. Sentada na cadeira, cabelo castanho curto, calças de ganga e camisolão, mais parecia um rapazito do que uma mulher que se aproximava da casa das quarenta primaveras. Sim, no seu caso eram bem Primaveras, pois a idade ainda não fizera estragos.
Revejo a sala, um pré-fabricado, como pré-fabricadas eram as salas de aula!, (e fala-se ainda hoje da falta de condições físicas da escola!) com um pequeno balcão, um armário para os livros de ponto, uma mesa rectangular e algumas cadeiras. Não me recordo da existência de mais mobiliário, mas o eco do que ouvi nessa tarde nunca deixou de ressoar.
Tudo se passara mais ou menos assim: em Junho, num determinado conselho de turma, os professores tinham-se zangado a propósito da atribuição de uma nota a uma aluna com 15 anos que pretendia trabalhar, ingressar na vida activa. A discussão tinha azedado e, quando tudo parecia estar resolvido, azedou ainda mais no conselho do dia seguinte em que a Ana era a professora de História e o Óscar um dos alunos da turma, já repetente e com 15 anos feitos. Não se fez justiça, os critérios mudaram e o que parecera lógico num dia deixou de ser no outro. Nova discussão e o Óscar reprovou. Não estou a dizer que o Óscar merecia ter passado, só que se tratava de um aluno fora da escolaridade obrigatória e que repetia o 2º ano! Mas, por acaso, o caso, passo o pleonasmo, até fora mais grave, porque o Óscar reprovou com três negativas. (Ainda não existiam os normativos de hoje!)
Bem, foi assim que eu soube a razão por que o Óscar estava pela terceira vez no 2º ano, absoluta e completamente revoltado com o mundo, com a vida, com as pessoas e, principalmente, com os professores.
Nessa noite dormi muito mal, às voltas com o travesseiro, a pensar numa maneira de chegar até ao Óscar, de conseguir aproximar-me o suficiente para que me ouvisse com «ouvidos de ouvir». Não sabia para onde me virar e, finalmente, compreendia as razões que o levavam a faltar às aulas como um doido.
Chamei a avó, possuidora de uma humanidade e de uma humildade espantosas, apenas conhecidas dos que já passaram por grandes amargos de boca na vida, que se esforçava por esquecer as maleitas cardíacas para acorrer àquele neto que era tudo quanto possuía na vida. «A srª Drª veja o que pode fazer pelo pequeno, porque já não sei que mais hei-de fazer!» Quantas vezes ao longo destes anos ouvi o mesmo apelo pronunciado em tons mais baixos ou mais altos, mais ásperos ou mais meigos, mas todos, todos com o mesmo tom angustiado da súplica, de quem se agarra à última oportunidade quando todas as outras já falharam!
Fiz de tudo, para que o Óscar voltasse às aulas, que, pelo menos, sentasse o rabo na cadeira para que pudesse ficar com o 2º ano do ciclo. Tantas tentativas, todas baldadas! Quantas conversas com o Óscar que, olhos baixos, apesar de me ficar um palmo acima, me fazia promessas que depois não cumpria. A última vez que o consegui ver, lembro-me de lhe ter dito que ainda havia de dar valor àquelas conversas e lamentar não ter seguido os meus conselhos e os da avó. O Óscar teimou na sua, fez ouvidos de mercador e, quando o fim do ano chegou, reprovou mais uma vez… por falta de assiduidade.
Alguns anos se passaram uns quatro ou cinco e, numa tarde invernosa, uma carta esperava-me à chegada a casa. No remetente, apenas uma palavra Óscar. Interrogava-me já sobre quem seria este Óscar, quando, aberta a carta, reconheci como seu autor o meu ex-aluno que não acedera a sentar o dito na cadeira para que o pudéssemos passar. Era uma carta sentida de um jovem que, na casa dos vinte, reconhecia que, não me dando ouvidos, tinha feito a maior asneira da sua vida e nela me comunicava que se preparava para fazer o 2º ano à noite (o emprego assim exigia!) e, se tudo corresse bem, talvez o 9º ano. Fiquei feliz por saber que o Óscar tinha resolvido o seu conflito com a vida e com ele próprio, ganhara juízo, fizera a tropa e se preparava para singrar num bom emprego, graças ao seu esforço e tive a certeza de que conseguiria isso tudo, porque era esperto, só lhe faltara o querer.
Tantos anos se passaram, tanta coisa mudou e tanta continuou exactamente igual.
«À pancada não me dobram!» Muitos há que nem com boas palavras lá vão! Nem repressão nem compreensão! Então, que fazer? Deixar andar… o tempo actuará! E, se a educação, que a escola e a família deram, implementou valores, então o jovem encontrará o bom caminho; se, pelo contrário, estes esbarraram em barreiras intransponíveis, provavelmente optará pelo que está cheio de escolhos.
Nós, adultos pais, professores, não nos podemos culpabilizar «ad eternum». Quando a consciência nos diz que tudo foi feito e que o jovem foi «surdo» a todas as tentativas, de nada nos vale «partir» a cabeça, porque quem a vai «partir» mais cedo ou mais tarde será ele. Nem tudo pode ser explicado pela hereditariedade nem pelo meio económico-social, nem pelo «grupo» a que o jovem pertence, se bem que este tenha uma importância crucial no seu desenvolvimento, dando razão ao ditado popular «Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és». O indivíduo é um ser único, com características próprias, que evolui num determinado sentido, sem que isso possa ser imputado a alguém ou a alguma coisa e, como dizia um conceituado psicólogo, professor numa universidade do nosso país, «como educadores, temos de estipular fronteiras e desempenhar o nosso papel, depois temos de permitir que o jovem opte, porque, em última análise, a última palavra será sempre a sua e nós não nos devemos culpabilizar.» Ponto final.

Por Teresa Portal