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SAÚDEAntibióticos: uso e abuso
Segunda-feira, Janeiro 7, 2008

Um destes dias trabalhava no Serviço de Atendimento de Consultas Urgentes (SACU) do Centro de Saúde das Taipas quando entrou um senhor que se queixava de rouquidão e que logo acrescentou que a situação só se resolvia com um antibiótico. Ao exame físico nada fazia supor que o doente necessitasse de tal medicamento e, como tal, não lho passei. Como resposta o doente disse que tinha vindo perder o seu tempo.

Esta situação ocorre com muita frequência e os médicos estão cansados de ouvir os pais perguntarem, depois de observarem o seu filho com febre, se a criança leva antibiótico, como se todas os casos de febre se tratassem com um antibiótico. Nada mais errado.

A era antibiótica começou no primeiro terço do século XX, quando os alemães descobriram as sulfamidas (1932). Pouco tempo depois Fleming descobriu a acção antibacteriana de um fungo e assim apareceu a penicilina. Com a descoberta dos antibióticos pensou-se que estavam resolvidas as doenças infecciosas e com a síntese de novas moléculas a humanidade deu um espectacular salto em frente. Não só se curavam as infecções comuns, como o uso dos antibióticos permitia a realização de cirurgias mais difíceis, pois as complicações infecciosas podiam ser debeladas, como também deles beneficiavam os doentes com cancro que eram submetidos a tratamentos que diminuíam as defesas do seu organismo ficando mais sujeitos às infecções. Com tudo isto a esperança de vida aumentou espectacularmente.

No entanto as bactérias não andam a dormir e, assim, em contacto com estas novas substâncias logo trataram de arranjar meios para se defenderem. Aquelas que o conseguem logo transmitem essa capacidade à sua descendência e, com o tempo, aparecem estirpes totalmente resistentes. Muitas classes de bactérias que inicialmente eram mortas pelos primeiros antibióticos, agora riem-se dos mesmos. Para combaterem estas novas bactérias resistentes foi necessário descobrir antibióticos progressivamente mais potentes, mas também mais caros e com mais efeitos secundários. As bactérias, por seu lado, tentam conseguir novas formas de resistir a estes novos antibióticos o que de facto têm vindo a conseguir. Por outro lado, nos últimos anos com o aparecimento da SIDA, as companhias farmacêuticas investiram na descoberta de medicamentos anti virais para combater esta doença, o que parcialmente foi conseguido. O reverso da medalha é que nos últimos 15 anos, praticamente não têm aparecido no mercado antibióticos que não pertençam a uma família já conhecida. Actualmente morrem milhares de doentes nos nossos hospitais com infecções que nem mesmo os antibióticos mais potentes conseguem combater. Estamos a caminhar rapidamente para o desastre, para a era pré antibiótica.

De quem é a culpa? De todos.

– Dos médicos, em primeiro lugar, que por não quererem correr riscos, praticam uma medicina defensiva, prescrevendo antibióticos progressivamente mais potentes e muitas vezes sem qualquer indicação para tal.

– Dos criadores de gado, aves e porcos que usam antibióticos nos animais para prevenir doenças e conseguirem mais rapidamente com que eles atinjam o peso ideal para serem abatidos e aparecerem no nosso prato.

– Das farmácias, que aviam antibióticos sem prescrição médica.

– Dos pais das crianças, dos utentes em geral, que pressionam o médico no sentido de lhes ser passado um antibiótico.
Que podemos fazer?

– Os médicos devem prescrever antibióticos com critério e “perder” tempo a explicar
aos utentes que nem toda a febre é sinónimo de antibiótico e que as infecções mais comuns da área otorrinolaringológica e do aparelho respiratório são causadas por vírus, que não precisam de antibióticos para serem curadas.

– Proibir a utilização de antibióticos na alimentação de todos os animais, já que compromete a sua eficácia nas enfermidades humanas.

– Que das farmácias não saia qualquer antibiótico sem prescrição médica.

– Que os pais em particular e os utentes em geral colaborem para não “forçar” os médicos na prescrição de antibióticos.

Só assim , todos colaborando, é que conseguiremos continuar a lutar contra as infecções provocadas pelas bactérias.

Para todos Feliz 2008!

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