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Crónica do Ano Velho
Segunda-feira, Janeiro 7, 2008

O Ano Novo é um acontecimento que acontece quando uma cultura celebra o fim de um ano e o começo do próximo. Todas as culturas que têm calendários anuais celebram o Ano Novo cuja passagem é também chamada réveillon, termo oriundo do verbo réveiller (que em francês significa “despertar”). No mundo ocidental a celebração do Ano Novo tem origem num decreto do governador romano Júlio César, que fixou o 1.º de Janeiro como o Dia do Ano Novo em 46 a.C. Os romanos dedicavam esse dia a Jano (ou Janus), deus bifronte que protegia as entradas e as saídas, o interior e o exterior. O nome Janeiro (tal como janela) deriva de Jano.

Costuma-se dizer nesta época de passagem de ano “Ano Novo, Vida Nova”. A passagem de ano é geralmente precedida por alguns momentos de reflexão sobre o ano velho que finda e o novo ano que se inicia. É uma época em que as pessoas fazem o seu balanço pessoal, profissional e social. Faz-se uma retrospectiva da vida que se tem tido e se esse percurso está de acordo com as nossas expectativas, objectivos e sonhos. Ao mesmo tempo planeia-se um aperfeiçoamento desse rumo ou mesmo uma mudança de paradigmas, visando um outro estilo de vida ou uma melhor qualidade de vida. O exercício que os convido a fazer é muito simples. Relembrar, num rápido movimento memorial, três ou quatro acontecimentos que mais nos marcaram, em termos colectivos, no ano 2007 e cujas repercussões se prolongarão pelo ano próximo.

Mediaticamente, o ano de 2007 ficará marcado pelo chamado caso Maddie. É difícil prognosticar eventuais desenlaces para esta situação. Não me refiro à criança a quem todos desejamos apenas que seja encontrada e com vida. Refiro-me sobretudo aos actores – creio que o termo é o mais apropriado para este caso – que participaram no circo mediático montado à volta do caso. Os pais, os amigos dos pais, as polícias, o eventual raptor (ou raptores), os detectives, as televisões, etc. Seja qual for o final que lhes está reservado dificilmente poderemos suportar que não aconteça nada. Como se, daqui por uns tempos, o caso caísse no esquecimento e a notícia fosse que não havia nem culpa nem culpados. Mas isso não significa que esses culpados tenham de ser encontrados ou, se necessário, construídos para serem crucificados na arena que o circo mediático montou em redor do caso.

Para a segunda metade do ano destaco, como facto principal, a presidência portuguesa da União Europeia. Para uns ela foi um rotundo sucesso. Para outros um contínuo show-off mediático que mais não fez do que ajudar-nos a esquecer os problemas reais do nosso país. Seja como for, o resultado mais palpável parece ser o chamado Tratado de Lisboa que, em rigor, poucos conhecem no seu conteúdo e no seu alcance. A questão seguinte será agora a da ratificação desse Tratado. Ou melhor, a forma como ela será feita. Pela via do referendo ou pelos parlamentos nacionais? Tive oportunidade de assistir, há poucos dias, a um debate num canal francês sobre esta questão. Nele estavam presentes quatro filósofos franceses oriundos de diferentes espaços ideológicos. O saldo é o seguinte: três a favor do referendo e um pela ratificação no(s) parlamento(s). Não é este o espaço adequado para debater a questão mas, na minha opinião, o referido Tratado é um passo fundamental para o futuro da União Europeia, dos países e nações que a integram e dos cidadãos que dela fazemos parte. Demasiado importante para que sejam só alguns a decidir por nós ou tão importante que não podemos arriscar que alguns cidadãos se aproveitem do referendo para votar, sim ou não, mas tendo em conta outras questões que não estão a ser referendadas?

No plano interno, assistimos a um avolumar-se de uma violência, inaudita pelas terras portuguesas. No país dos brandos costumes, as mortes violentas, muitas vezes sem grande motivo aparente ou como resultado de guerrinhas tribais, devem fazer-nos reflectir sobre a sociedade que somos e que sociedade estaremos nós a construir. O Ministro da Administração Interna apressou-se a explicar que, neste caso, se trata de uma excessiva mediatização de casos particulares. É verdade. Há na sociedade portuguesa um gosto mórbido pelo grotesco, pelos “casos reais”, pelos crimes de faca e alguidar. Mas isso não explica tudo e sobretudo não encobre uma realidade onde as tensões, as fricções e os interesses pessoais e corporativos parecem superar, em muitos sentidos, o interesse colectivo.

No plano internacional destaco a intervenção e do ex-futuro Presidente dos Estados Unidos, Al Gore, agora Prémio Nobel da Paz, em prol do planeta. Para além das pequenas polémicas, alimentadas por algumas conclusões menos sólidas do seu trabalho, a verdade é que ele teve o mérito de colocar as questões ambientais no centro de algumas discussões. Pelos vistos, os resultados alcançados na recente Cimeira de Bali reflectem já alguns dos frutos semeados por essa discussão a nível global. Veremos. O que é certo é que cada um de nós tem um papel a desempenhar. Essa é também a Verdade Inconveniente que não podemos esquecer nas grandes opções nem nos pequenos gestos quotidianos.

Bom Ano 2008 ou, como se diz por esta Terras de Miranda, BUN ANHO DE 2008.

Miranda do Douro, 26 de Dezembro de 2007