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Crónica do rusticus e do urbanus
Quarta-feira, Outubro 3, 2007

Num artigo recente sobre o caso MacCann, José Pacheco Pereira, referindo-se à possibilidade de ter existido uma morte acidental da criança, motivada pela administração de sedativos, escrevia que tal acto é “uma versão mais sofisticada de algo que nos campos se fazia com aguardente” (PÚBLICO, 15 de Setembro de 2007).

Claro que sim. Eu, que nasci e me criei no campo, posso confirmar que fui, desde pequeno, alimentado e adormecido com grandes quantidades de aguardente. Sempre que abria a boca para uma pequena choradeira, lá estava a garrafa de aguardente (substituta do biberão) a encher-me as goelas. Como eu, a esmagadora maioria das crianças que nasceram nessa altura sofreram os horrores deste tratamento de choque. Aliás, nos (longínquos) anos sessenta, Portugal era um país profundamente rural. Sendo assim, forçoso é de concluir que todos os cidadãos com mais de quarenta anos, mais mês menos mês, foram criados a aguardente. Enfim, lá haverá uma pequena minoria que teve a sorte de ver a luz do dia numa cidade. Estes, pelo contrário, foram apenas calados com outro tipo de soporíferos, narcóticos, batatas fritas ou sedativos que nem imagino como se chamam.

Para lá da chalaça em que, espero, ninguém acredite, é inegável que existe uma fractura entre o mundo rural e o mundo urbano. As raízes desta separação cresceram, como na maioria dos países europeus, com a chamada revolução industrial. Em Portugal, como se sabe, ela foi muito tardia ou quase inexistente. Ainda assim, langorosamente, foram-se acentuando as diferenças, as divisões e as funções entre os dois mundos que outrora tinham sido complementares. A emergência de uma nova sociedade urbano-industrial acarretou a perda de centralidade económica, social e simbólica do mundo rural. O campo e a cidade passaram a ser opostos, construindo-se um contra o outro. O campo passou a estar associado a visões e realidades arcaicas, à estagnação, enquanto que a cidade é vista como o palco, por excelência, do progresso. A cidade é o espaço onde se encontram os elementos valorizados, com a modernidade, ávida e sedenta de novidade, voltada para o futuro, a ser incompatível com o espaço memorial representado pelo campo.

Mas a complexidade dos dois mundos não é, sem pode ser, separada linearmente e a bisturi. As fronteiras entre ambos não correspondem à dicotomia tradicional urbano-rural ou cidade-campo. As realidades das actuais regiões urbanas incluem espaços urbanos, suburbanos, rurais e até agrícolas. Contudo, a questão central, que a alusão de Pacheco Pereira apenas emerge, é o desprezo e a superioridade que o mundo urbano tem pelo mundo rural, palco de tradições abomináveis e violentas. Apesar de uma pretensa valorização política e simbólica, trazida por um discurso falsamente patrimonialista, a realidade mostra-nos uma flagrante falta de meios, a fragilidade das políticas e dos programas de apoio que não têm criado riqueza, nem emprego, antes acentuando o fosso entre duas realidades que deveriam ser complementares.

Compreende-se. A pouca distância com que olhamos o mundo rural não nos permite (ainda) valorizar nem ver com paixão essa realidade. Por isso, um teima, outro teima, e assim se vai cavando o abismo do desconhecimento.

Recentemente, num vídeo jocoso que circulava na internet − no youtube, creio − era apresentado o caso “misterioso”, que ocorria numa pequena aldeia alentejana, onde as pessoas tinham o estranho hábito de, ao encontrarem-se, se tocarem com as mãos, apertando-as. O (pseudo)Presidente da Junta explicava ao (pseudo)jornalista, vindo da cidade, que assim era, de facto. Se fosse de manhã, primeiro diziam “bom dia” e, estando próximas, apertavam as mãos; se fosse depois de almoço, diziam “boa tarde” e também apertavam as mãos; se fosse à noite, diziam “boa noite” e apertavam igualmente as mãos. Estranhos hábitos estes, concluía o entrevistador, desconhecidos na cidade onde não há tempo nem condições para estes “apertos de mão”.

De repente, vem-me também à lembrança a célebre fábula de Esopo sobre o rato do campo e o rato da cidade. O rato do campo convidou o seu amigo para jantar. Contudo, nada mais tinha para lhe oferecer a não ser erva e trigo. O rato da cidade, disse-lhe que aquilo era vida de formiga, convidando-o para ir a casa dele onde poderiam encontrar toda a abundância. Assim era, de facto. Legumes, trigo, figos, queijo, mel, frutos, nada faltava. Mas, quando se aprestavam para iniciar o banquete, de repente, alguém abriu uma porta. Atemorizados, fugiram. Passado o susto, quando se preparavam para ir, de novo, buscar uns figos, outra pessoa entrou no compartimento. Ao vê-la, precipitaram-se de novo no seu buraco para se esconderem. O rato do campo, esquecendo a fome, disse então ao outro: “ Adeus, caro amigo, tu comes tudo o que queres, mas ao preço do perigo e do medo. Eu, pobrezinho, prefiro viver comiscando trigo e cevada, mas sem temer nem suspeitar de ninguém.”

A oposição entre a cidade e o campo, entre a civilização e a ruralidade, embora muito antiga, tem hoje novos contornos. O papel de refúgio e segurança que as áreas rurais sempre desempenharam em épocas de crise para as populações citadinas está também a mudar, com o futuro do mundo rural a ser decidido na cidade onde se encontra o poder. Mas a compreensão do presente e a construção do futuro só é possível no respeito e no conhecimento do passado. É verdade que o cheiro da aguardente embalou e adormeceu muitas crianças. Mas o éter alcoólico não pode fazer esquecer nem desprezar o saber rústico, do povo (incluindo as práticas tradicionais sobre o parto e a puericultura).

Miranda do Douro, 28 de Setembro de 2007