Crónica da resbalina
Quarta-feira, Julho 25, 2007

Quando eu era criança uma das diversões favoritas era andar nas resbalinas.

A resbalina significa, em mirandês, a parte dos rochedos lisos e inclinados pelos quais se pode resvalar. Havia-as para todos os gostos e coragens. Para os mais temerários existiam as mais inclinadas e compridas. Para os mais medrosos ou principiantes não faltavam também pequenas rampas onde se podiam iniciar na arte de resbalar. A arte e a vitória consistia em chegar o mais depressa ao final, ou seja, ao fundo, independentemente da distância a percorrer. Pelo que, como se vê, se tratava de um exercício profundamente democrático que tinha em conta as variáveis tempo, espaço e características individuais do resbalador.

A técnica de resbalar era apurada, assemelhando-se à dos “rodeos” americanos. Sentados em cima de um molho de giestas, normalmente apertadas com um fio (quando existia) ou com as próprias giestas, as pernas estendidas para a frente, as costas direitas, uma das mãos segurando o tronco das giesta e outra livre para servir de remo e alavanca, avançávamos destemidos e a “todo o gás”. No fundo da rampa, se pelo caminho não fôssemos ejectados pela cavalgadura de circunstância, aguardávamos o prazer de olhar a resbalina vencida, os breves instantes em que desafiáramos o perigo, aproveitando a lei da gravidade.

Mas o maior perigo nem eram as leves escoriações que aconteciam regularmente na cabeça, nos braços ou nos joelhos. O que normalmente não ficava intacto eram as calças, que ora não se davam com o dorso da montada, teimando em rasgar-se logo nesse local impróprio, ora acabavam por ceder justamente nos joelhos onde mais precisávamos de protecção. Vinham depois os raspanetes habituais, misturados, às vezes, com suaves palmadas pedagógicas. Nada que fizesse esmorecer o nosso ânimo de, numa próxima oportunidade, desafiarmos a resbalina com mais força e mais coragem.

Hoje, visto de Trás-os-Montes, Portugal parece uma enorme resbalina por onde tudo escorrega para o litoral. A uma velocidade perturbante por ela vão deslizando as escolas, os hospitais, os centros de saúde, os serviços. Aos poucos, também as pessoas apanham a onda e deixam-se escorregar. Veremos, a médio prazo, quais as verdadeiras mazelas que esta nova ordem provocará no país e no ordenamento do território. Por este resvalar, o interior (e não o sul do Tejo) transformar-se-á num deserto e a população amontoar-se-á no litoral. Mas não se julgue que, sem gente, o interior se há-de tornar num local paradisíaco onde nos deslocaremos aos fins-de-semana para contemplar as belezas naturais. Se não houver quem cuide da paisagem rural, ao ritmo com que os incêndios devastam a vegetação e os fenómenos ditos naturais fazem acelerar a desertificação, veremos o paraíso natural transformar-se num inferno terreal. Aos poucos, as marcas aparecerão na paisagem. Buracos indiscretos que deixarão ver as manchas e as máculas desta política e desta democracia que teimosamente acentua as diferenças, sem capacidade para se opor à ditadura das maiorias, à lógica dos lucros e dos números. Ou seja, uma democracia desvirtuada que, languidamente, vai inclinando o país rumo ao mar onde se afogam as nossas ânsias imperiais. Mas, ao contrário da resbalinas da minha infância em que, uma vez no fundo, desejávamos avidamente voltar a subir, não se vêem, no nosso país, nem sinais, nem vontades de inverter a lógica do resvalanço. E nós, como cidadãos, bem precisávamos que nos explicassem quais as metas e os objectivos, para que pudéssemos acreditar que há só um país a construir, sem desprezo por nenhum dos seus noventa e dois mil e oitenta quilómetros quadrados.