PUB
Crónica das eleições presidenciais francesas
Terça-feira, Abril 10, 2007

Faz por agora cinco anos, com data de 26 de Março, escrevi outra crónica sobre as eleições presidenciais gaulesas. Nessa altura vaticinei que a vitória final deveria ser discutida entre dois dos cerca de vinte candidatos que então se apresentavam às eleições: Jacques Chirac e Lionel Jospin. Enganei-me redondamente. A vitória acabou mesmo por pertencer a Chirac mas Jospin, apoiado pelo Partido Socialista Francês (PS), nem sequer passou à segunda volta, tendo sido superado pelo candidato da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen.

De passagem por França, onde vim participar na 9.ª Semana de Cinema e Cultura Lusófona, de que fui o fundador, dá-se a coincidência de dentro de um mês haver um novo escrutínio. Em 2007 são apenas 12 os candidatos. Contudo, o panorama das apostas e das sondagens configura-se tão ou mais complexo como o de 2002. O PS apresenta, desta vez, uma mulher, Ségolène Royal. Saída de umas “primárias” onde bateu esmagadoramente dois outros pesos pesados do PS francês, Laurent Fabius e Dominique de Strauss-Kahn, dir-se-ia que reúne todos os ingredientes para que o PS retome as rédeas do poder em França. Contudo a questão não se afigura assim tão fácil. Hoje mesmo (dia 23) a candidata está aqui em Nice, em pré-campanha, num terreno tradicionalmente ocupado e favorável à direita. Por isso, não deixa de ser revelador que tenha escolhido para o seu comício uma pequena sala de cerca de 1.500 lugares, quando François Bayrou, o candidato centrista da UDF, se instalou há bem poucos dias na grande sala de espectáculos Nikaïa, que pode receber cerca de 7.000 pessoas. Nicolas Sarkoky, apoiado pela maioria UMP, reunida em torno do actual presidente Jacques Chirac, parece configurar-se como o candidato com lugar assegurado na segunda volta, que terá lugar no dia 6 de Maio. Seja como for, um destes três deverá ser o próximo Presidente da República francesa.

Algo verdadeiramente novo nestas eleições parece ser a paixão com que os franceses se entregaram a este debate eleitoral. Segundo as sondagens, a abstenção situa-se hoje apenas nos 10%, bem longe dos 17% que se registavam em finais de Janeiro. E novos parecem ser igualmente alguns contornos da campanha, centrados no debate de ideias há muito tempo arredadas destas lides eleitorais. A coesão social, a identidade nacional, a vida pública, a ecologia, a emigração, são alguns dos temas que têm merecido amplo destaque nos debates de pré-campanha. Isto não quer dizer que o resultado das eleições não possa vir a ser decidido em função de outras critérios que não os programas. Algo perfeitamente plausível se pensarmos que estes três candidatos apresentam propostas tão semelhantes, e às vezes tão iguais, que o voto poderá vir a ser decidido com base em critérios tão anódinos e simultaneamente tão importantes como o carácter de cada um. Ou seja, a forma como reagirão face ao inesperado, à ameaça, à crise, aos atentados, à intimidação. Este parece ser também o rumo dado pela comunicação social − onde se inclui a portuguesa − sempre à espreita de um facto externo que possa despoletar uma reacção inesperada de um candidato.

Ora, em termos europeus (e nesta matéria continua válido aquilo que escrevi há cinco anos), o Presidente da República francesa tem uma palavra muito importante sobre o rumo da União. Contudo, nenhum dos candidatos parece muito interessado em abrir completamente o jogo sobre a sua política estrangeira. Nas poucas linhas programáticas consagradas a este assunto, todos falam na fortificação das relações franco-alemãs, no lançamento de novos projectos europeus centrados nas questões ambientais, na energia e na investigação, na necessidade de um novo tratado europeu mais limitado e restritivo do que aquele que foi chumbado pela França. Todos afirmam a necessidade das boas relações com Washington e do direito a não estar de acordo com todas as suas políticas.

Por isso, o debate vai certamente centrar-se nas questões nacionais procurando, também aqui, todas as micro-fissuras capazes de os separar. A ecologia, o trabalho, a segurança social, a educação, a justiça e a emigração, são (e deverão ser) alguns dos temas mais presentes na campanha. A possível criação de um Ministério da Emigração fez despertar algumas vozes sempre atentas aos primeiros sinais de xenofobismo. A verdade é que esta proposta é comum a François Bayrou e a Nicolas Sarkozy. Contudo, este último, aproveita para injectar também no seu discurso a noção de identidade nacional, num claro piscar de olhos ao eleitorado do Front Nacional, certamente mais disponível para acolher todas as amálgamas ideológicas e demagógicas capazes de confortar a sua concepção de uma França imaculada e eterna. Ségolène Royal, por seu lado, defende um sistema que favoreça os trabalhadores sazonais que assim poderiam vir trabalhar em França sem terem de se estabelecer nem eles nem as suas famílias.

À escala europeia, e na era da mundialização, a ideia de um controlo das fronteiras nacionais é, no mínimo, ilusória. Por outro lado, os dados demográficos dizem-nos que a França, tal como a maioria dos países europeus, necessita de emigrantes para conservar uma taxa suficiente de população activa. Por isso, tal como noutras questões, o mais difícil não será perceber as propostas de cada candidato, mas discernir as amálgamas perigosas como a da emigração com a identidade nacional.