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Crónica das coisas difíceis
Quinta-feira, Janeiro 4, 2007

Parece ser assim mesmo. A publicidade mais não faz do que o aproveitar o que está na moda para vender o produto. E a moda é não fazer nada. Esperar, sentado, que o sucesso venha ter connosco, sem grande esforço e sobretudo sem trabalho. Para quê estar a esforçar-me para obter algo quando posso ter um sucedâneo sem levantar um dedo? Eis uma das facetas mais marcantes da nossa civilização: a apologia do facilitismo, a armadilha do sucesso fácil e o logro do imediatismo. É uma cultura de fortes e fracos, apologética dos sinais exteriores de sucesso, das percepções duvidosas da felicidade e da realização pessoal, que busca a cada momento os vitoriosos do dia. É uma sociedade que desistiu de pensar, inebriada pelas lições telenovelescas, que aguçam o apetite e aumentam a cultura nacional, onde as ideias e sentimentos são mediados por tablóides e ecrãs, fazendo de nós espectadores passivos e obedientes das pequenas mentiras com que se contam as histórias que não existiram, dos feitos que não valeram a pena, do trabalho que não produziu semente, das glórias mesquinhas do efémero, consentindo que nos roubem o essencial de sermos gente e estarmos vivos.

O discurso oficial afina pelo mesmo diapasão. E não estou a falar da retórica governamental com que se pretende justificar a necessidade imperiosa de tomar medidas difíceis e impopulares como as que temos assistido nos últimos tempos. Esta é já a última operação com que pretende remediar o estado cataléptico a que chegámos. O que ninguém nos diz é que tal resulta, em grande parte, da falta de visão política e estratégica, ou seja da forma como o país tem sido (mal) governado há muito tempo.

Sobre a ditadura e as décadas de atrofiamento salazarento nem vale a pena gastar cera com tão ruim defunto. Alcançada a democracia, ninguém nos ensinou que ela não é um bem adquirido, um sistema perfeito, mas antes um processo contínuo, deficiente e sempre inacabado. Chegada a União Europeia, parece que ninguém nos avisou que ela também exigia esforço, trabalho e muitas dificuldades. O verdadeiro discurso oficial, que está para além das palavras de circunstância, é aquele que se lê nas ruas onde circulam os carrões com não sei quantos cavalos, os telemóveis topo de gama, as roupas de marca, onde a publicidade faz as delícias dos consumidores, sedentos por décadas de constrangimentos, é certo, mas extasiados pelas facilidades do dinheiro fácil, do crédito ao consumo, pela realização dos sonhos julgados impossíveis.

Foi este mesmo discurso que baniu da nossa escola a palavra trabalho e a substituiu por estudo. Que nos enganou dizendo que aprender é fácil. Que nos ensinou que tudo deve ser lúdico, a brincar, sem suor. Os resultados estão à vista. Continuamos uma sociedade de analfabetos, de iletrados, de mão-de-obra barata, mas paradoxalmente encasquetados numa grandeza imaginária como se a Índia e o Brasil ainda jorrassem os ouros dos nossos sonhos imperiais.

Felizmente que há muitos, minúsculos e anónimos guerreiros que todos os dias lutam ombro a ombro para fazer a demonstração do possível, num tempo onde o que é difícil e está a mais se oculta. É a eles que neste final de ano eu gostava de prestar a minha homenagem. Na secreta esperança de que, apesar de todas as injustiças que também caracterizam o nosso mundo e o nosso modo, sejam eles os verdadeiros vencedores a emergir e a solidificar da espuma do tempo, para além da glória efémera do protagonismo.

Miranda do Douro, 29 de Dezembro de 2006