Crónica dos heróis nacionais
Quinta-feira, Novembro 2, 2006

A febre comemoracionista é uma das doenças das sociedades modernas. Logo que o final do ano se aproxima assim se abrem os calendários, esquadrinhando quais os aniversários, centenários ou bicentenários a celebrar no ano vindouro. Mas o frenesim das comemorações não se limita nem aos nomes nem às datas que merecem honras de festividades e referências nos calendários. Há que acrescentar a paixão pela genealogia, com a criação de bases de dados tendencialmente infinitas, a proliferação de museus locais, onde se armazenam religiosamente todos os objectos do passado, a multiplicação de monumentos comemorativos (os monumentos aos mortos são só um exemplo) que se amontoam em todas as cidades, aldeias, jardins e rotundas que se prezem.

A “procura do herói” é, como temos visto nos últimos dias, mais uma das manifestações e efeitos secundários desta enfermidade. Quem será o maior português? Uma vez identificado, pelo meio aparentemente mais democrático que é o referendo popular via email, telefone e sms, terá lugar a estátuas, datas comemorativas, centenários, feriados? Ficará apenas averbado, caso seja defunto, nos Anais da História que o conservarão até que o esquecimento o devore? Reclamará, caso seja vivo, uma tença mensal pelos altos valores prestados à nação? O cenário mais provável é que, passada a “celebridade” fugaz, seja devorado pela voracidade do tempo, do nosso tempo, que ora se compraz na contemplação do passado, ora se deleita na adoração do futuro, na constante perseguição do novo e no culto do efémero. Ora só uma sociedade que duvida de si própria, que teme pelo seu futuro ou em plena crise (quase adolescente) de afirmação, pode mostrar tanto afã na procura de um herói. Tanta vontade de identificar uma figura, de preferência do passado, que se transforme em símbolo e ídolo.

Este culto da história, em geral, e do património, em particular, inscreve-se num movimento secular, de carácter cíclico, de que os períodos do Renascimento e do Romantismo são exemplos paradigmáticos. Contudo, nas História Europeia, ele recebeu dois impulsos fundamentais durante o século XX. Em primeiro lugar conheceu a perplexidade do pós-guerra, traduzida na ingrata tarefa de reconstruir a Europa e de perpetuar a memória colectiva. Em segundo, absorveu o mal-estar provocado pela massificação da cultura, o sentimento de ruptura próxima de muitos equilíbrios naturais mantidos ao longo de milénios.

Por outro lado, as mudanças aceleradas das últimas décadas, com o apregoado “fim do mundo rural”, trouxeram para as cidades um sem-número de desenraizados que sente uma nostalgia pelas suas origens, ou pela vida que levavam os seus pais ou os seus avós.

Neste pretenso regresso à terra, todos os sinais do passado são passíveis de se constituírem como bálsamo de consolo, capaz de devolver alguns sinais da identidade perdida. O regresso ao monte alentejano é, em Portugal, o exemplo mais visível deste processo. Ainda estamos longe do êxodo que, em alguns países europeus, arrancou das metrópoles muitos citadinos indefectíveis e os plantou no mundo rural, onde crescem agora como pretensas hortaliças biológicas nascidas de sementes transgénicas. Entre nós, provavelmente o fenómeno nunca se produzirá, para bem ou mal dos nossos pecados.

Mas as sementes do futuro só poderão medrar em terreno fértil e cultivado. Ou seja, na sabedoria do tempo, na espessura e no labor que os heróis anónimos, homens de carne e osso, conferem à História. Por detrás de um herói mítico há milhares de outros heróis, homens e mulheres que a História jamais recordará.

Lisboa, 26 de Outubro de 2006