PUB
Crónica da crónica do Mundial
Sábado, Julho 1, 2006

Se bem me lembro, como diria Vitorino Nemésio, uma crónica deve ser um relato, num registo suave e ligeiro, sobre um acontecimento do quotidiano. Assim o dizem e comprovam as suas raízes etimológicas, com origem na palavra grega kronos que significa Tempo. Rezam também os manuais que uma crónica tem um começo, mas nunca se sabe como termina. Ou seja, o cronista tem o direito de divagar ao sabor do tempo, digamos assim.

Estava eu nestas magicações, tentando sempre responder ao embaraço de última hora que é arranjar um tema, e lembrei-me de que o único acontecimento possível de ser relatado, neste tempo, é o Campeonato do Mundo de Futebol. Além disso, pensei, é também a garantia de que alguém lerá este texto. E nestas como noutras coisas ninguém gosta de cozinhar para deitar fora!

Pois bem, falemos então do Campeonato do Mundo de Futebol.

Confesso que há muito tempo não vou à bola. Mas não deixo de apreciar o meu futebolzito, de torcer pelo “meu” clube, pela selecção, e de estar mais ou menos informado sobre os resultados, transferências e lances duvidosos. Esta é, aliás, uma garantia de integração social, encontrando um tema de conversa que serve à maioria dos portugueses. A verdade é que o futebol tem algumas virtudes. A primeira, parece-me, é tratar-se de um desporto democrático. No estádio encontramos ricos e pobres, pobres e ricos. Todos podem gritar ao mesmo tempo, dizendo as mesmas palavras, libertando-se das contingências sociais que os obrigam a ser diferentes. Todos podem ser treinadores. De bancada, é certo, mas com direito a opinião. E nisto de futebol, a boa táctica tanto pode ser dada pelo mais enfatuado como por um simples zé-ninguém. O que importa é o resultado.

O Campeonato do Mundo de Futebol é, sem dúvida, um dos palcos mais democráticos da cena internacional. E quando digo democrático não quero dizer igual nem equitativo. Ou será que todas as equipas têm, de facto, as mesmas possibilidades de virem a ganhar o torneio? A verdade é que permite que os “países” se confrontem sem olhar aos respectivos PIB’s (o único pibe conhecido é mesmo Maradona!), poderio militar, comercial, nuclear, posição ou influência geopolítica. No campo parecem esbater-se as diferenças. Assim se cria um manto diáfano de igualdade que cobre, por igual, o Togo, os Estados Unidos, o Gana, a Alemanha, Portugal, Espanha, etc.

O futebol é o conto de fadas dos tempos modernos. Os ouvintes, metamorfoseados em telespectadores, ambicionam transformar-se em reis e princesas, por uns breves, dias, horas minutos, num abracadabresco gooooooooooooolooo, gritado do mais profundo da alma, sonhando que podem ganhar, ser campeões, multimilionários como os heróis que aparecem nos relvados.

Mas, sendo profundamente democrático, é também terrivelmente realista. Tal como nos contos, lá chegará o desfecho, o apito final, que nos há-de trazer à realidade. Felizmente que lá virão outros futebóis e outros campeonatos. Assim, poderemos continuar a sonhar…

Quem ganhará o Campeonato do Mundo?

Quem ganhará com o Campeonato do Mundo?

Miranda do Douro, 29 de Junho de 2006