À entrada do ano 2006…
Sexta-feira, Fevereiro 3, 2006

Manias que passaram de mães a filhas, aqui, na aldeia, onde ainda se vão vivendo as tradições, porque, na cidade, essas coisas já caíram em desuso há muito tempo. Nessas alturas, há os exageros que, confesso, só são possíveis em Férias quando o tempo está por nossa conta e podemos pôr e dispor de todos os nossos segundos e minutos.
Não é tarefa fácil, já que, pela janela entreaberta, o ruído da variante invade o Conselho Executivo, onde procuro trabalhar. O dia apresenta-se solarengo e com uma luminosidade que convida ao devaneio e não ao trabalho. Todavia, a passagem contínua de carros e de pesados impede a concentração já que todo o barulho parece refugiar-se no gabinete, bem juntinho a mim.
Parece impossível! Uma variante paredes meias com uma escola! As nossas vias, nem de propósito, são construídas nos locais mais impróprios! E depois apela-se à segurança, nomeadamente das crianças. Fazem-se Campanhas de Prevenção Rodo-viária, implementa-se a Escola Segura e para quê? Para que os alunos, à saída da escola, e em cima de uma curva tenham uma passadeira onde podem, simplesmente, ser passados a ferro. Isto não aflige as autoridades. Que os professores da escola, com um parque automóvel saturado, possam estacionar em cima dos passeios (do lado da escola!), em locais por onde ninguém anda, isso já parece incomodar, se bem que actualmente menos um pouco. Segurança? Paleio da boca para fora, só para enganar os tolos, os que andam a dormir na forma e ainda acreditam em histórias da Carochinha. Esta variante passa junto aos muros de três escolas da vila: a EB2,3, o JI do Assento e a Escola Secundária. Como se pode ver, tem uma localização óptima. Ah! Esquecia-me de mencionar o Centro de Saúde que, verdade verdadinha, não lhe fica em cima, mas assim bem ao ladinho. Se aqui houvesse hospital era certo sabido que por lá passaria a variante para que os doentes pudessem ser embalados à noite pelo ruído dos motores. Uma música sugestiva para já não falar dos gases dos escapes que são, como sabemos, extremamente salutares…
Bem, e já perdi o fio à meada a propósito da música de fundo que me distraiu. E a variante até nem tem nada a ver com problemas do ano 2005. Foi assim como que um problema ao lado que se vem mantendo ao longo dos anos.
Reflectindo então sobre 2005, para mim, foi um ano que acabou muito mal. Perder um dos pais, neste caso a mãe, não é nada fora do normal, pois que este é um dos poucos factos que nos coloca em situação de igualdade e que deixa marcas profundas e nos fragiliza imenso, já que ninguém está preparado para esta situação. Deixamos de poder contar com o apoio da geração anterior e coloca-nos a nós, a geração seguinte, na fila da frente. É uma sensação estranha que só poderá ser compreendida por quem já perdeu os pais. Somos os próximos pela lei natural das coisas e espero que assim seja, porque não pretendo medir as intensidades das dores, mas não deve haver dor pior do que perder um filho. Adiante.
Logo a seguir, o acidente de que fui vítima na auto-estrada mostrou até que ponto somos frágeis, até que ponto não somos nada. Podia ter morrido, felizmente safei-me com uma cicatriz na testa. Vão-se os anéis, fiquem-se os dedos, mas ninguém diga que está a salvo de apanhar uma «traseirada» que o projecte contra os separadores da auto-estrada.
Não há vida sem sofrimento, dizem. É o sofrimento que nos serve de condimento e nos prepara para enfrentarmos a realidade. Estou viva e, se Deus quiser, por mais algum tempo.
Quase sem querer, abordei um outro ponto escaldante neste ano que acabou- as «coisas da religião» para não lhes dar outro nome. Custa-me que, num país de tão fortes tradições católicas, agora é quase um ponto de honra referir que o país é laico!, em que a esmagadora maioria da população é católica, tenhamos de andar a copiar o que os outros andam a fazer e mal. Cuidado com os crucifixos nas escolas pois podem ofender alguém. Crucifixos só existiam nas escolas do primeiro ciclo, mas custa-me a creditar que um crucifixo pudesse ser ofensivo para alguém. Claro está que os que gostam de desestabilizar (e são tantos!), aqueles que não têm opinião própria mas gostam de dizer amen com quanta idiotice apareça, os que adoram fazer tempestades em copos de água e levantar celeuma por tudo e por nada estão felicíssimos porque têm, finalmente, onde enterrar o dente e dar alimento à língua viperina. Eu só questiono a razão por que havemos de copiar o que se passa lá fora, se nós, felizmente, continuamos a ser um povo de brandos costumes e, acima de tudo, respeitador da opinião dos outros e nada fundamen-talista. E depois, as coisas vão-se avolumando e adquirindo proporções que ninguém queria, mas quando se dá por ela já é tarde e já o caldo entornou.
Com a escola muito mais calma, já que as «substituições» obrigam a que os alunos estejam nas aulas e quase não haja ninguém a deambular pela escola, os pequenos acidentes provocadores de vidros partidos desapareceram e os jovens andam muito mais calmos. Na escola, não há gritos e a ordem existe. Sem dúvida que estas medidas trouxeram alguns benefícios. A classe docente é que anda mais nervosa e descontente, resmungando contra o Governo e, indirectamente, contra nós que implementamos as medidas que foram tomadas como meros executivos que somos. Enfim, as coisas estão gradualmente a acalmar e estamos a aguardar por novos acontecimentos que, certamente, não deixarão de nos surpreender pela negativa, claro.
Por último, uma breve reflexão sobre o Rotary Club de Caldas das Taipas. Tendo chegado a meio do meu mandato como presidente, a actividade que mais me agradou desenvolver foi a entrega dos Prémios Escolares aos melhores alunos das quatro escolas da área de influência deste clube, precisamente porque sou profes-sora. É uma das situações que me agrada, quando a vida fora da escola acaba por ter aspectos coincidentes com a vida profis-sional. E premiar o mérito dos jovens é sempre uma coisa muito boa para os professores que também precisam de incentivos para não se sentirem perma-nentemente desmotivados na carreira que muitos (deixem-me pensar assim!) escolhe-ram por vocação.
E chega de reflexões. Um muito bom 2006 para todos vós, cheio de realizações profissionais e pessoais e cheio de paz e solidariedade «verdadeiras» para a humani-dade à qual pertencemos.