Sócrates e Sampaio os dois vencedores
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Muito se escreveu e muito se falou neste período de tempo, o povo ouviu e, no dia 20 de Fevereiro, pronunciou-se fazendo o seu juízo final.
Os vencedores e vencidos em sete pontos:

Vencedores
1º – Objectivamente, José Sócrates foi o grande e único vencedor desta eleições. Conseguiu uma vitória histórica, “matando o borrego” da maioria absoluta, por muitos impossível de ser alcançada pelo Partido Socialista.
Sócrates teve durante a campanha eleitoral um discurso um pouco vácuo, fruto de alguma estratégia? (António Vitorino lançou um alerta de como irão ser tomadas as decisões do futuro governo, “habituem-se!”) ou fruto de uma insegurança no rumo para as políticas e projectos a serem implementados pelo futuro governo? O futuro o dirá.
Para já, fica esta vitória estrondosa que aumenta as responsabilidades do futuro Primeiro Ministro. Sócrates tem agora todas as condições de convidar os melhores para formar um bom governo. Será incompreensível se não o fizer e alguns dos melhores estão, com certeza, fora do aparelho partidário. Formado o governo, tem também todas as condições para levar a cabo as medidas reformistas que o país tanto precisa.

2º – Jorge Sampaio é o segundo vencedor deste acto eleitoral. Chamou a si a responsabilidade de dissolver o parlamento fazendo cair o governo, não deixando de dar uma oportunidade à maioria formada pelo PSD/ CDS-PP de prosseguir as suas políticas. Fê-lo com inteligência e serenidade. O povo português deu razão a Jorge Sampaio e não há nada melhor do que ter os eleitores a seu lado. Por muito que se especule ou se arranjem teorias sobre a forma de estar do Presidente da República neste episódio. Os portugueses decidiram ao lado dele. Contra factos não há argumentos.

Vencidos
3º – Santana Lopes é o grande derrotado. Mas como se não bastasse, ainda tem forças para alimentar uma hipotética recandidatura à liderança do PSD. É lamentável que use o partido para tentar bloquear o reaparecimento de Cavaco Silva. Esta ideia está bem vincada, basta ver o apoio que veio da Madeira a Santana Lopes e as afirmações que de lá também vieram sobre Cavaco Silva, uma coincidência irrefutável.
Se a recandidatura de Santana se confirmar, advinham-se tempo difíceis e duros dentro do PSD. Fica a perder o partido e também o país por não poder contar com um PSD forte, nos próximos actos eleitorais, como é desejável a todos os níveis.

Uma pergunta: Onde está a “mega fraude das sondagens” que o presidente do PSD evocou? Um pedido de desculpas não lhe ficava mal, ou será que, os eleitores também são parte integrante dessa “mega fraude”?  

4º – Paulo Portas perdeu em toda a linha, não cumpriu nenhum dos objectivos que traçou para CDS-PP e ainda conseguiu que o seu partido baixasse em votos na urnas. Pior não podia ser.
No entanto, ao contrário do seu parceiro de coligação, teve a lucidez necessária para assumir integralmente as suas responsabilidades, demitindo-se. Se esta posição não for uma manobra de diversão, regressando pela mesma porta à liderança do partido, sai com elevação e deixa uma porta aberta para reaparecer noutros combates políticos.

5º – Apesar de uma notável ascensão do Bloco de Esquerda, também é um dos vencidos. Continua a ser a quinta força política (longe da terceira posição desejada pelos seus responsáveis) e não conseguiu evitar a maioria absoluta do PS. Portanto, podemos dizer que esta subida na urna, em termos práticos, resulta em nada. O BE não passa de um fenómeno pela sua irreverência contra o regime e muito provavelmente nunca passará disso se continuar na sua orientação política.

6º – Alberto João Jardim mais um vencido. Mete pena ver esta espécie de “reptil venenoso” rastejar-se na vida política portuguesa. Foi o único peso pesado (?) do PSD que apareceu junto de Santana Lopes. Vocifera, sem pudor, contra Cavaco Silva, a contento de Santana, mas não escapou, mesmo na Madeira de uma divisão de deputados com PS. Será o inicio do seu fim…

7º – Os abstencionistas, apesar de melhoria significativa, continuam a representar um número exagerado. Nunca saberemos com exactidão se o seu voto contribuiria para uma maior vitória do PS ou para amenizar a derrota da direita. Para quando a consciencialização dessas pessoas que o seu voto, apesar de legítimo, vale zero em termos de intenção e, porque, pode ser interpretado de muitas formas.

P.S. – O Partido Comunista Português não é incluído neste pontos, por considerar que não é um vencedor, visto que, não conseguiu evitar a maioria absoluta do PS mas, por outro lado, também não é um vencido, tendo em conta a sua subida, à condição de terceira força politica. É um facto relevante para o PCP que se encontrava numa curva descendente no panorama político.

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