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Já não há paciência para o “colosso”
Quinta-feira, Setembro 22, 2016

Castelo de Versalhes photo versailles_chateau-427_zpswtioqwan.pngEscultura que representa o rio Ródano, inspirada na imagem de Neptuno, em bronze, da autoria de Jean-Baptiste Tuby (1687, jardins do Palácio de Versalhes). Imagem: Marc Vassal. Wikimedia Commons.

Parece confirmar-se que quanto menos se sabe sobre um objeto arqueológico, mais especulações se levantam quanto ao seu significado e cronologia. Existe, em Guimarães, na rotunda fronteira ao Hospital de Nossa senhora da Oliveira, uma escultura granítica de consideráveis dimensões, conhecida como “Colosso de Pedralva”. Foi assim apelidada devido ao seu tamanho e volumetria, que se impõe, bem como ao facto de ter sido recolhido num lugar da Freguesia de Pedralva, Concelho de Braga, no início do século XX, em local anteriormente adquirido por Francisco Martins Sarmento.

Quando aqui dizemos que já não há paciência, em jeito de desabafo, referimo-nos ao vasto rol de publicações, particularmente nos meios cibernéticos, que explicam “claramente” o significado desta escultura. Um pouco por todo o lado a associação da escultura inacabada com a Citânia de Briteiros (claramente errada) e com o contexto cronológico pré-romano é uma constante. Trata-se, para uns, de um exemplo da “arte atlante”, para outros do deus gaulês Sucellus, para outros o deus “celta” Lug, para outros ainda uma representação do “pai primordial”… Teria brandido num dos braços um maço ou martelo, o que o associa ao deus Vulcano, etc. etc. Acompanham todas estas vastas teorias, os impropérios aos arqueológos que, a começar pelo próprio Martins Sarmento, puseram em causa todos estes conhecimentos, que se enquadram no que podemos designar por pseudo-ciência.

Temos, pois, que a investigação científica não se pode basear na reprodução acrítica do que se escreveu há 20, 40 ou 100 anos. Sobretudo, a ciência não é, naturalmente, uma questão de fé, de acreditar que isto quer dizer aquilo, e de reagir ferozmente contra quem intenta romper o “dogma”. Se a classificação estilística de uma escultura tem, certamente, muito de relativo, cânones existem que orientam as nossas observações. Há exceções, certamente, mas também existem contextos e probabilidades, que devem ser analisados sem obscurantismos e crenças nos “atlantes”, sejam lá eles o que forem.

Não existe, na escultura inacabada do “Colosso da Pedralva”, nenhum elemento que o associe à escultura castreja, ou seja, à arte característica da Idade do Ferro. Estamos diante de um esboço de uma figura humana, sentada, ligeiramente reclinada, com um dos braços levantado, o outro partido, e com uma prega de tecido que cobria o baixo ventre e as pernas. Parece-nos, mais que outra coisa, um exemplo de escultura de inspiração clássica, fosse de época romana, ou posterior ao Renascimento.

Talvez por desaparecimento do escultor, ou qualquer outra dificuldade técnica ou económica, a estátua não foi terminada, e os seus fragmentos foram abandonados, provavelmente no próprio local onde estava a ser esculpido. Foi aí que Sarmento encontrou a escultura. Os fragmentos não estavam enterrados, pois que não se fez nenhuma escavação. Estavam à vista, caídos no solo, o que não deixa de ser estranho se se tratasse de uma escultura com milhares de anos. Não consta que ele fosse proveniente de nenhum castro, nem dela se conhece outro contexto que não o do achado, nem nenhuma outra referência anterior ao século XIX (algo que um “colosso pré-histórico” teria seguramente suscitado). Habitantes locais disseram a Sarmento que eram os restos de uma estátua para o Bom Jesus do Monte, ou para o Mosteiro de Tibães.

Em 1948, António de Azevedo, o “herege” que questionou o valor histórico da estátua, sugeriu tratar-se do esboço de uma escultura de São João, de finais do século XVIII ou inícios do XIX, destinado ao Parque de S. João da Ponte, em Braga.

Não escondendo a nossa quase total concordância com os argumentos de Azevedo, apostaríamos mais numa estátua de Neptuno (ou Posídon), destinada a um parque, sim, e que iria levar, no seu braço erguido, um tridente, ou um relâmpago.

Corresponde o desenho-base desta estátua ao retrato típico desta figura da mitologia greco-romana, tantas vezes reproduzida em esculturas dos séculos XVII, XVIII e XIX: o Neptuno do Museu do Vaticano, também reclinado; a estátua de Neptuno de Copenhaga, com o braço erguido… Aqui deixamos, aliás, uma imagem de uma representação alegórica do rio Ródano, em bronze, que bem poderíamos chamar de “Colosso de Versalhes”.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento