“Sr. Dr. ando um bocado esquecida…”
Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

A D. Joaquina é uma utente de 51 anos de idade e sempre muito atarefada. Entrou no consultório, cumprimentou-me, sentou-se e disse:
– Sr. Dr., ando muito esquecida. Por exemplo, há algum tempo atrás não consegui encontrar os meus óculos, pois não sabia onde os havia deixado; a semana passada passei por uma velha amiga e, na altura, não me consegui lembrar do nome dela; anteontem fui às compras e deixei a lista em casa. Até já me aconteceu ter estacionado o carro numa das ruas de Guimarães e passadas umas horas ter andado à procura dele, fazendo figura de idiota. O meu marido até já diz que só não perco a cabeça porque ela está colada aos ombros…
Estas são queixas que, com algumas variantes, quase diariamente todos os médicos ouvem nas suas consultas. As pessoas preocupam-se porque sentem que algo já não era como dantes e isso lhes acarreta algum transtorno.
Que é que se passa?
A memória pode ser definida como a capacidade que permite reter e recordar, de uma forma inconsciente ou consciente toda a informação a que tivemos acesso.
Quanto ao factor tempo, o nosso cérebro tem diversos tipos de memória:
1. Memória de curto prazo (por exemplo lembrar o nome de uma pessoa que conhecemos há uns momentos).
2. Memória recente (por exemplo recordar, no final do dia, o que se comeu ao pequeno almoço).
3. Memória de longo prazo (que conserva a informação de dias, meses ou anos).
Mas há outros tipos de memória. Por exemplo:
Aquela que guarda dados concretos, informação consciente sobre o que desejamos recordar, como 2×2 serem quatro ou a capital de Itália ser Roma – memória semântica.
Ou aquela que nos faz reter coisas sem nos darmos conta, como por exemplo, detalhes de uma paisagem a que não demos especial atenção – memória episódica.
Ou ainda aquela que nos permite realizar coisas, sem ter que manter constantemente a nossa atenção – memória processual. Por exemplo, quem já não conduziu das Taipas a Guimarães e à chegada não se lembrar por onde passou de tão preocupado ia com os seus pensamentos? Ou andar a passear de bicicleta com um colega e conversar com ele ao mesmo tempo? Neste caso manter-nos em cima da bicicleta não requer a nossa atenção em exclusivo, fazemos as coisas automa-ticamente.
Na verdade a memória humana tem uma capacidade muito mais elevada que o mais potente computador. Pode chegar a conter 10 biliões de bits.
Podemos ir na rua e apenas com o cheiro saber que alguém está a assar sardinhas. Ou a capacidade que temos de apenas com o tacto adivinhar diferentes objectos. São prodígios que, penso, os computadores jamais conseguirão igualar.
E como pode a memória humana conter tanta infor-mação e saber como recuperá-la dentro do nosso cérebro?
A resposta a esta pergunta tem preocupado muitos cientistas. Parece que as recordações se podem recuperar através da excitação eléctrica de certos neurónios, que são células cerebrais. Por outro lado, a transmissão dos sinais eléctricos através dos neurónios é provocada por substâncias químicas chamadas neurotransmissores. O nosso cérebro não é uma rede de cabos já formada, mas antes em evolução, isto é, novos circuitos entre neurónios vão-se criando à medida que aprendemos e as recor-dações são assim registadas.
O problema é que com o decorrer da idade começamos a perder algumas células cerebrais e a produzir menos neurotransmissores, as tais substâncias químicas de que acima falei. Quanto mais se envelhece, mais estas alterações afectam a memória. A memória de curto prazo e a memória de longo prazo não são frequentemente afectadas pelo envelhecimento. No entanto, a memória recente, sim.
Para além da idade outros problemas podem afectar a memória, tais como a depressão, a demência, efeitos colaterais de alguns medicamentos, traumatismos cerebrais, alcoolismo, etc. Cabe ao médico distinguir as situações.
Mas, de uma maneira geral, como saber se os problemas de memória são sérios?
Um problema de memória é sério quando afecta a actividade diária de uma pessoa. Se quem me lê se esquecer de um nome, provavelmente está bem. Mas poderá ter um problema se não se recordar de como fazer determinadas tarefas que havia feito anteriormente muitas vezes, ou ser incapaz de realizar coisas que necessitam de determinados passos, como por exemplo, seguir uma receita de cozinha.
Outra diferença entre uma perda de memória normal e um problema sério é que a perda de memória normal, não piora ao longo do tempo, ao passo que no caso de haver problemas a perda de memória piora ao longo de meses ou anos.
Por exemplo, não fazem parte do envelhecimento:
– Esquecer-se das coisas de uma forma mais contínua que anteriormente.
– Esquecer-se de como fazer tarefas que já se fez muitas vezes.
– Repetir frases ou histórias na mesma conversação.
– Problemas ao tomar decisões ou como usar o dinheiro.
– Ser incapaz de se lembrar do que aconteceu ao longo de um dia.
Às vezes pode ser difícil para o próprio dar-se conta que se tem um problema sério. Nestes casos é a família que se apercebe de que algo não está bem. É sempre um bom sinal apercebermo-nos das nossas falhas de memória.
A memória, da mesma forma que outras habilidades físicas ou manuais, pode ser exercitada através do treino. Leia, faça contas, ajude os mais novos nos trabalhos escolares. Não se deixe, simplesmente, a passar o tempo a dormitar em frente à televisão. O importante é manter-nos activos, em todos os sentidos, ao longo da nossa vida, para que as nossas capacidades em vez de diminuir continuem crescendo com os anos.
E, a propósito, a D. Joaquina não tem nada de grave.