Só os ‘boys’ ganham curriculum
Segunda-feira, Março 14, 2016

O cargo de confiança política, dizem os administrativistas, têm que existir, pois a administração do país não pode admitir falta de implementação de medidas, opções, reformas, transformações, por falta de lealdade político/partidárias.

Dizem outros que na administração pública a probabilidade de haver deslealdade na implementação das medidas é maior se os dirigentes de topo, os de nomeação política, não forem do mesmo partido e, por isso, não comungarem dos objectivos traçados a nível superior.

Até aí, menos mal.

A Coligação PSD/CDS tentou que os altos cargos de nomeação politica fossem exercidos por pessoas com reconhecida competência e sujeitos a uma seleção cujo escrutínio estaria sob a égide da CRESAP.

A ideia é boa na sua essência. E deveria ser seguida. O problema é o recrutamento.

Assim, o recrutamento estaria reservado a candidatos que apresentassem curriculum condizente com as funções. Logo reservado só a alguns.

E a pergunta que se imporá é saber quem tem o melhor curriculum para as funções. A resposta é óbvia: os boys.

Na categoria dos boys políticos existem os absolutos, os relativos e os de circunstância eventual.

Os boys absolutos são aqueles que só fizeram política a vida inteira. Então apresentam um curriculum invejável: adjunto do ministro da administração interna; adjunto do secretário de estado da juventude; diretor geral; diretor regional; assessor do presidente da câmara, vereador, deputado, etc.

Os boys relativos são aqueles que, apesar de desempenharem alguns cargos políticos, mantêm uma atividade privada paralela e saltam dela quando não interessar.

Depois temos os de circunstância ou os de consagração. Os que sempre serviram o partido e ao fim de muitos anos são nomeados para cargos honoríficos e prestigiantes, em que o curriculum já pouco conta.

Existem ainda uns acumuladores de curriculum ad eternum, porque beneficiários de licenças sem vencimento da administração pública ou equiparada. Estes serão os Para-boys.

Portanto, para ganhar curriculum ou se é boys absoluto/relativo ou tem de se estar ligado à administração pública direta ou indiretamente. Logo, os concursos para o preenchimento de cargos dirigentes da administração pública são direcionados para esta gente. E temos mais do mesmo, num circulo que se perpetua num eterno retorno.

Os outros, diria, restantes, não têm curriculum variado por mais do que uma razão: se são profissionais liberais, têm de trabalhar e, não existe, no setor privado, o escudo protetor das licenças sem vencimento; das comissões de serviço, etc.

Porque as licenças sem vencimento, no setor privado, não são concedidas ad eternum.

Cada vez mais, no setor privado, para se ganhar a vida é necessário dedicação, empenho e profissionalismo a tempo inteiro. E essa necessidade configura o oposto de saltitar de cargo para cargo na construção de uma pirâmide de curriculum.

Tesoureiro da Junta de Freguesia de Caldelas