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“Grande Cena” o novo texto de Jacinto Lucas Pires em estreia pelo Teatro Oficina
Quinta-feira, Janeiro 28, 2016

Com a encenação de Marcos Barbosa, a peça estará em cena no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor até ao próximo dia 31 de Janeiro.

Há uma crença, com origem na cultura chinesa, que nos diz que nada no universo faz sentido sem o seu contrário. Pois não é tanto de contrários ou de opostos, mas de tensões permanentes que vive a peça Grande Cena, que o Teatro Oficina estreia hoje, 28, com texto de Jacinto Lucas Pires.

Em palco estão dois casais de actores, que vão pondo à prova tudo o que os une, mas também tudo o que os separa. De um lado, temos um casal sofisticado – ela latino-americana; ele sobranceiro e snob. Do outro lado temos outro casal, descomplexado e cheio de bonomia.

As tensões de que falávamos podiam acabar aqui – apesar de serem quatro actores, há muito que os pode separar e a peça vai explorando essas tensões. Além disso, há uma permeabilidade do texto para temas da actualidade.

O encenador Marcos Barbosa explica que boa parte do texto final teve origem numa série de apontamentos para improvisação que começaram por ser trabalhados com alunos do Curso de Teatro da Universidade do Minho. Além disso, a equipa da peça gravou algumas das suas conversações em conjunto, falando sobre os mais variados temas. Tudo isso foi aproveitado e transformado por Jacinto Lucas Pires.

Pelo meio, há acontecimentos da actualidade que passaram a fazer parte do texto. Este aspecto, em conjunto com uma representação muito próxima do que podem ser os comportamentos reais de quatro pessoas, conferem à peça um cariz realista e documental.

O início das discussões é sobre um prato típico do México, que acaba por ser usado como veículo para fazer sobressair diferenças culturais entre a Europa e a América-Latina e que podem de início não ser tão óbvias. Depois, pelo meio, entra a tensão entre os clássicos e os contemporâneos, nas artes e no teatro muito em particular.

Ao longo da peça é instalada no espectador uma confusão premeditada, entre o que é realidade e o que é representação. A partir de dada altura, dentro da peça desenrola-se uma outra peça, fazendo lembrar os filmes de Almodóvar, em que a narrativa se vai desconstruindo por camadas, como se fossem bonecas russas.

Esta é mais uma colaboração do dramaturgo Jacinto Lucas Pires, que este ano terá uma residência artística em Guimarães. Grande Cena é a primeira estreia do Teatro Oficina do ano que agora começa e estará em cena, em Guimarães, até ao final do mês de Janeiro.

Para Marcos Barbosa, que encenou Grande Cena e participa também como actor, a peça pode funcionar como um testemunho da participação pública dos artistas – “esta é uma peça de intervenção contemporânea”, diz.

Antes da apresentação de estreia da peça, no Centro Cultural Vila Flor, o Teatro Oficina fez uma pequena digressão, com ensaios abertos, por algumas freguesias do concelho de Guimarães. Para o Director do Teatro Oficina, a ideia é mostrar uma parte do trabalho, para que o público sinta curiosidade e motivação, sendo sobretudo um convite para assistir à apresentação integral da peça.

“É uma obrigação nossa estar presentes junto da comunidade e de irmos ao encontro das pessoas. Se não fizer parte da normalidade da vida das pessoas habitar este espaço [CC Vila Flor], temos de ir lá buscá-las. Para já, a reacção que temos percebido é de que as pessoas reagem, riem-se e divertem-se e ficam sensibilizadas com o nosso convite” – descreve Marcos Marbosa sobre a experiência. “Não é uma coisa inédita, mas é algo que quero continuar a fazer enquanto estiver no Teatro Oficina” – acrescenta.

Este ano o Teatro Oficina irá dar particular destaque ao trabalho de Jacinto Lucas Pires, que é o artista convidado e prevê-se que vários textos seus sejam trabalhados pelo Teatro Oficina e que serão mostrados nas freguesias do concelho de Guimarães.

Este não é a primeira vez que o Teatro Oficina trabalha com Jacinto Lucas Pires – em Outubro de 2008 a companhia apresentou “Silenciador”, em estreia. A escolha de ter um escritor residente é opção da direcção do Teatro Oficina em trabalhar as novas dramaturgias.

A escolha de Lucas Pires justifica-se com a continuidade da colaboração entre Marcos Barbosa e Jacinto Lucas Pires. Ambos começaram a fazer teatro em 2000, na mesma companhia de teatro. “Infelizmente, Portugal não tem assim tantos dramaturgos a trabalhar” – reflecte Marcos Barbosa. “Há uma relação de confiança, que é pessoal e artística, que permite potenciar o impacto do nosso trabalho” – justifica.

Em contraponto às novas dramaturgias, a companhia vimaranense voltará, em 2016, a William Shakespeare, com apresentação de Conto de Inverno, depois de em 2015 terem trabalhado numa adaptação de Rei Lear, do dramaturgo inglês.

Depois da temporada em Guimarães, “Grande Cena” deverá ser apresentada em pequenas salas de teatro um pouco por todo o país. Além de Marcos Barbosa, o elenco de “Grande Cena” é composto por Alheli Guerrero, Anabela Faustino e Ivo Alexandre. A cenografia foi trabalhada por Ricardo Preto e o desenho de luzes estará a cargo de Pedro Vieira de Carvalho.

Os bilhetes têm o preço de 7,5 euros e podem ser adquiridos na bilheteira do Palácio Vila Flor, na Plataforma das Artes e da Criatividade e online na bol.pt.