É p´ró menino e p´rá menina… A propósito dos produtos milagrosos da televisão
Terça-feira, Julho 21, 2015

Ultimamente todos temos ouvido ou visto publicidade na rádio ou televisão a produtos para o combate aos mais variados problemas, como o excesso de peso, as inflamações, a artrose, a osteoporose, os vírus, as intoxicações, os tumores ou a falta de desejo sexual. Poder-se-á, o leitor, interrogar: será que são medicamentos? Se são assim de resultados tão milagrosos, como é que o Ministério da Saúde é tão cego e não os comparticipa?

Em relação à primeira questão a resposta é negativa. Não são medicamentos. Para ser considerado medicamento, um produto tem que obedecer a rigorosos critérios legais de segurança, eficácia e qualidade. Aliás, se estiverem atentos à publicidade, não falam em medicamentos, mas sim em “fórmula”, “produto”, “suplemento”, ou algo do género.

Para que um medicamento seja introduzido no mercado tem que ser avaliado na sua eficácia, segurança e qualidade absolutas e, para ser comparticipado e de uma forma simplista, tem que ser submetido a uma avaliação farmacêutica, isto é, é necessário confirmar se o fármaco cumpre com as exigências impostas no tratamento das doenças para as quais foi aprovado; uma avaliação clínica em que o novo medicamento é comparado com outros existentes e deve demonstrar que é, pelo menos tão eficaz como os outros e uma avaliação económica em que se pretende saber se é mais barato, ou se for um medicamento inovador (isto é, com vantagem terapêutica acrescida), ser submetido a estudos de avaliação económica para quantificação da mais valia. Ora, esses produtos anunciados na TV, não passam por este crivo apertado e, como tal, não são medicamentos e muito menos comparticipados.

Já agora é bom que o leitor saiba, como já deve ter reparado, que os medicamentos não são todos comparticipados de forma igual. Os medicamentos destinados a doenças mais incapacitantes ou crónicas têm comparticipações mais elevadas, como acontece, por exemplo, com as insulinas. Outros, como os anti-inflamatórios, têm comparticipação mais baixa.

Posto isto, surge a questão: como é que é possível que os canais de televisão, rádios, jornais e todos os outros meios de comunicação estejam a fazer este tipo de propaganda? A resposta é simples: por dinheiro. Será, também, pelo vil metal, que vemos figuras conhecidas a “ajudar à missa”. Existe alguma preocupação pela saúde dos tele espectadores? Duvido. Inclino-me mais pela preocupação pela sua carteira… É que alguém terá que pagar esta publicidade e dar, ainda, lucro. Será o leitor um “mãos largas”? Se for o caso, aconselho-o a procurar mais informação sobre cada um dos produtos que considera experimentar, idealmente, junto do seu médico, sendo que este terá como principal missão o seu bem-estar. Ajudá-lo-á a aprofundar e clarificar a informação obtida, averiguando as suas crenças e a sua esperança nestes tratamentos “milagrosos” e, acima de tudo, apresentar opções terapêuticas com eficácia comprovada e definir, em conjunto, a estratégia que o poderá colocar no caminho da resolução dos seus problemas.

Filipe Neves
Médico Interno de MGF da USF de Ronfe