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“O rock será sempre novo” – entrevista com os GNR antes do concerto em Braga
Quinta-feira, Maio 21, 2015

Em antecipação do concerto de sexta-feita no Theatro Circo, em Braga, para apresentação do disco novo “Caixa Negra” – o disco número 13 da banda.

Os GNR regressaram em 2015 com um novo disco, que traz um conjunto novas canções, com a escrita característica de Rui Reininho e a produção de Mário Barreiros. Antes do concerto de sexta-feira no Theatro Circo, em Braga, estivemos a conversar com Jorge Romão – o baixista irrequieto da banda. Falamos sobre o disco novo, sobre os trinta anos de percurso dos GNR, para os quais o rock continua novo. O concerto será gravado, possivelmente para uma posterior edição.

Como estão a correr os ensaios para o espectáculo de sexta-feira no Theatro Circo?
Estão a correr muito bem. Começamos com ensaios para o espectáculo que fizemos no sábado passado, em São João da Madeira. Portanto os trabalhos já vão bem embalados. Vai correr tudo bem, estamos preparadíssimos. Vamos ter um grande ambiente no concerto. Mais do que ambiente, estamos muito entusiasmados e motivados para este regresso ao Theatro Circo, que nos traz boas memórias.

Uma banda com trinta anos de carreira, como lida com as críticas de quem tem pouco mais do que metade em idade?
Lidamos com muita naturalidade. Quando as críticas servem sobretudo para a banda continuar a crescer e a tornar-se mais banda ainda, lidamos de uma forma natural. Ouvimos quando as coisas estão bem e ouvimos quando estão mal. Quando é assim procuramos corrigir e melhorar aquilo que fazemos.

“Caixa Negra” surge após “Voos Domésticos”, há alguma ironia nesta sequência de títulos?
Não é ironia, foi uma coincidência. Calhou! Mas acaba por fazer algum sentido, que coincide com alguma frustração que o grupo teve em relação ao disco anterior.

Mesmo com a recepção menos calorosa a “Voos Domésticos”, decidiram revisitar “Desnorteado” para este último disco. Não pensaram que seria um desafio arriscado?
Não pensamos isso. Temos sempre músicas que ficam fora dos discos – que gravamos, mas que achamos que não fazem sentido no alinhamento final do disco. Houve canções que ficaram de fora e então lembramo-nos do “Desnorteado”. Fizemos a versão que está no disco para o lançamento de um vinho, ao qual demos o nome desta canção, fizemos alguns concertos com esta versão e decidimos mostrar ao produtor. Ele achou que encaixava perfeitamente no resto disco e ficou.

Falando de produtores, os GNR tiveram alguns percalços com os produtores dos discos. O que motivou a escolha de Mário Barreiros para a produção de “Caixa Negra”?
Foi uma preocupação em fazer melhor. Na altura do “Retropolitana” sentimos que era preciso alguém de fora, para fazer outra leitura e potenciar as canções. Às vezes estamos tão dentro das canções que nos escapam alguns detalhes, que poderiam ser melhorados. Já tínhamos trabalhado com o Mário Barreiros por altura da colectânea “ContinuAcção Vol.3” e gostamos da experiência. O Mário foi a nossa primeira escolha, estava disponível para trabalhar no disco e estamos muito satisfeitos com os resultados. Além de produzir acabou por tocar guitarra no disco, fez toda a pré-produção connosco como músico.

Tal como dos produtores, o mesmo se poderá dizer dos guitarristas. Porque é que o Tóli deixou a bateria para passar a tocar guitarra nos concertos?
Foi precisamente para estancar esta sangria de guitarristas. A todo o tempo havia necessidade de fazer audições para guitarristas. O Tóli foi aprendendo a tocar guitarra, de forma auto-didacta e acabou-se essa necessidade. Agora estamos os três ali na linha da frente e muito bem.

Fazer música, hoje, é diferente de como era feita há trinta anos. O que se mantém e o que mudou no processo de composição e escrita dos GNR?
A inspiração continua a ser a mesma de sempre, que tem a ver com a capacidade criar da banda. O que mudou e nos veio facilitar vida foram as ferramentas. Hoje em dia com a oferta que há a nível tecnológico, criaram-se mais atalhos, chegando aos resultados em menos tempo. Antigamente, com o analógico, as coisas eram mais puras mas, por outro lado, não eram tão trabalhadas como são hoje em dia. O nosso processo de trabalho mantém-se: primeiro a música e depois as letras, não há grandes segredos, as canções aparecem quando há trabalho.

Muitas pessoas questionam-se sobre o que escreve Rui Reininho nas suas letras, porque não as compreendem. Afinal, sobre que escreve o Rui Reininho?
É difícil falar por ele. Mas o Rui vai sorvendo aquilo que as pessoas lhe vão oferecendo. Ele é como um “voyeur”, vai olhando para tudo com a sua objectiva e depois transforma aquilo de uma forma muito peculiar. Eu acho que as letras que o Rui Reininho faz, ele como mais ninguém as sabe cantar.

Vinte e três anos depois de “Rock In Rio Douro”, como fazem a leitura do sucesso deste disco, no contexto da discografia e do percurso dos GNR?
A importância do disco foi acrescentar canções novas aos alinhamentos dos concertos. Confesso que há algumas canções das quais nos fartamos e procuramos transformá-las ligeiramente. Sempre que sai um disco novo há sempre um refrescamento do alinhamento e uma motivação maior da banda em cima do palco.

Ambicionam ainda encher estádios ou já se deixaram disso?
Não, não, não… Isso foi chão que já deu uvas.

O Grupo Novo Rock continua a ser novo ou o rock, tal como o conheceram, está velho?
Para nós sim. O acrónimo de Grupo Novo Rock continua a fazer sentido para nós. O rock será sempre novo enquanto houver quem acredita que é possível fazer boa música. O rock é uma música de combate e continuará a ser. Há uma nova geração de bandas às quais estamos atentos e gostamos. Por exemplo, a propósito da nossa ida a Braga, gosto imenso de peixe:avião. Há outros, Memória de Peixe… Admiro imenso esta nova vaga de artistas que fazem uso da electrónica, desde o Moullinex aos Sensible Soccers. Estamos atentos, sim.

Qual é a relação com esta nova geração de músicos portugueses?
É muito boa. É simpático, por exemplo, ouvir dos Pontos Negros, que já não editam há bastante tempo, que se inspiraram nos GNR para fazer algumas das suas canções. Isso é muito gratificante.