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À praxe o que é da praxe!
Sexta-feira, Fevereiro 7, 2014

Quando aterrei em Coimbra, pelo ano de 1985, deparei com a consolidação do renascimento da praxe académica, processo que se tinha iniciado em 1979. Recordo que, no cortejo da queima das fitas de 1986, houve especiais cuidados pois ainda havia uns resquícios de anti-praxistas que incendiavam os carros dos novos fitados.

O renascimento da praxe académica significava um reviver das tradições académicas e incluía o uso, de novo, da capa e batina – traje académico.

O código da praxe é um conjunto de regras que regula as relações entre estudantes e entre estes e a universidade, nesta incluídos professores e funcionários.

É verdade… os professores participavam na praxe e eram parte integrante dela de acordo com os graus que iam obtendo. Um professor Doutor poderia ser “toureado” pelos alunos em determinadas circunstâncias. Mas isso estava tudo regulado. Não resultava da cabeça de “doutores” do 2.º ano de qualquer curso.

Um caloiro que chegue a uma universidade que tinha seculares tradições académicas quer saber como se “safar”. Então, tenta saber quais são as garantias de defesa do caloiro.

Fiquei a saber que não poderia ser mobilizado debaixo de telha, isto é, dentro dos edifícios; que poderia fugir; que poderia desafiar para a porrada um dos elementos que a trupe escolhesse; que poderia recorrer para o Consilium Veteranorum. Afinal um caloiro também tinha direitos.

Pelo que soube, os cursos que me antecederam, cerca de 5 que ainda frequentavam e os seguintes, nada de negativo em termos de praxe aconteceu.

À data, a praxe eram aulas fantasmas – de elevado nível; eram enganos relativos a inscrições para as frequências; era comungar umas bebidas com os mais velhos, e pouco mais.

Não se via, em toda a academia, qualquer praxe física, violenta e degradante.

O tipo de praxe de violência física e violência psicológica encontrei no serviço militar obrigatório. “Encher” a torto e a direito, ser insultado, não deixar dormir; ser acordado aos berros e insultos; ser metido em tanques de água gelada; ser pontapeado; estar formado muitas horas ao frio e à chuva, etc..

Bem, as praxes militares, apesar de violentas, ainda tinham justificação uma vez que podem estar inseridas no treino militar: complemento do treino físico e pressão psicológica sobre os instruendos de modo a testá-los para um cenário de guerra.

Agora, o que se vê na praça pública são caloiros a ser castigados com a praxe militar. A praxe militar venceu mas não convence.

Deveria ser a universidade a influenciar as práticas iniciáticas aos militares e não a praxe da tropa a vulgarizar-se nas academias.

É o “brugesso” a sobrepor-se…

E porque é que isso acontece?

Porque as lusófonas e equiparadas, incluindo a Universidade do Minho, não têm tradição académica. E se não a têm, então cada um inventa-a à sua maneira. É um regabofe.

Inventam trajes, práticas, tradições, hábitos com o fito de conferir grandeza à universidade. Não é por aí que ela ganha projecção; é por motivos que, no caso da Universidade do Minho, são do domínio público – a qualidade da investigação.

Nunca percebi o prazer sádico de fazer e ver os outros sofrer; uma violência que impõe uma dor gratuita e só existe com um objectivo: poder praxar (castigar) no futuro.

E assim, o que assistimos não são verdadeiros ritos iniciáticos e integradores de estudantes do ensino superior. Assistimos a castigos gratuitos de “doutores” em fase de transição da adolescência para a idade adulta cuja mestria é humilhar, vulgarizar, entorpecer, petrificar a “carne fresca” de caloiros que deveriam impor a sua dignidade e, ao invés, passam por cobardes obedientes.

Também aqui, a dignidade do ser humano tem que estar em primeiro lugar sob pena de nos anularmos como pessoas.