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“A Pré-história” da CUTIPOL (XXVIII – 2)
Segunda-feira, Dezembro 2, 2002

A sua qualidade e apresentação, permitiram-me “entrar” nas tradicionais casas de comércio da Rua Sá da Bandeira, das Flores e outras mais, com os preços rigorosamente iguais aos dos fabricantes mais antigos. Ninguém me poderia levar a mal que, principiante que era, fizesse uma pequena diferença na tabela para me facilitar o arranque… Mas foi uma aposta que fiz e ganhei, para que não dissessem que aparecia a “estragar preços”.
Pois não chegou a dois meses que o meu ex-patrão, de conluio com um desgraçado que o acompanhou, rebaixassem o preço em dez por cento!
Sem motivo à vista – os preços das matérias primas e subsidiárias, bem como os salários, mantinham-se inalteráveis – vi perfeitamente que o alvo a abater era a minha posição que lhes fazia sombra…
Fiquei desmoralizado com a perfídia que manifestava a atitude incompreensível desses dois infelizes. Os dois tiveram o pago pois ambos fazem parte, há muito, do pelotão dos desistentes que ficam pelo caminho sem honra nem glória!
Recordo-me de que, na Casa Sanhudo que existia ao lado do Teatro Sá da Bandeira, um caixeiro–viajante, de nome Pinto, se bem me recordo, ao ver o meu ar desanimado em face da malvadez de que estava a ser vítima, colocou as mãos em cima dos meus ombros e animou-me: “Você é um jovem e eu já vi que tem estofo e visão para vencer. Não desanime pois está a ser vitima como o coelho que tem as armas apontadas ao sair da toca. Você já revelou potencialidades que não vejo nos seus concorrentes e verá que tem o sucesso ao seu alcance.” Há palavras em certos momentos da vida que valem fortunas! Como eu estou grato por ouvir, naquelas circunstâncias, aquelas proferidas por aquele bom homem!
Há males que trazem bem e assim aconteceu comigo. Querendo-me fazer mal, saiu-lhes o tiro pela culatra como passo a relatar a seguir:
Cheguei a casa ao anoitecer. Os meios de transporte eram a camioneta de carreira ou o comboio. A moda do automóvel não estava ao alcance de quem começava.
Pedi a uma tia que vivia connosco que me preparasse uns bolos de bacalhau e tomei a decisão de fazer o que, só para passados mais uns tempos, tinha programado.
Regressei imediatamente ao Porto e antes da meia–noite estava em Campanhã para tomar o comboio–correio que me pôs no Rossio às sete horas da manhã. O rápido era mais caro e o primeiro lucro de quem começa, é o dinheiro que não gasta…
Em poucos minutos estava à esquina da Travessa Nova de S. Domingos a tempo de ver o Patrão Brás abrir a porta. Mais uns instantes e chega o Zé Moreira que ficou surpreso ao ver-me assim, sem me fazer anunciar. Já adivinhava o que eu pretendia pois, um ano antes, o tinha posto ao corrente dos meus planos. Era Outubro, com o Natal próximo, mas o bico de obra era entrar no clube de fornecedores. Isso só com o beneplácito do chefe. Ultrapassado esse obstáculo o resto já era com ele e por isso vamos lá tentar…
Lá fomos encontrar o Homem na sua tarefa matinal de assinar uma montanha de cheques.
Absorvido nessa faina nem os olhos levantou e ao anúncio do seu colaborador de que tinha em sua frente mais um fornecedor de talheres, a reacção não me foi nada favorável: “Já temos fornecedores a mais e estou farto de aldrabões”! O argumento de que o artigo fugia à vulgaridade, que tinha “pinta” e outras coisas mais, não o demoveram.
Quando, em desespero de causa, me resolvi a sugerir que, “se V. Excia me permitisse, eu apresentava-lhe as amostras” descobri, sem saber, a maneira de, finalmente, o fazer levantar os óculos e fixar-me de frente: “Aqui não há V. Excias, é Sr. António e pronto”!
Ao ver-me com ar de adolescente com aparência de ter à volta de 17, 19 anos, exclamou: “Mas porque é que não veio cá o teu pai”?!
À minha resposta de que a oficina era minha e que fui eu que a lancei, bradou em tom imperativo: “Ó Moreira, vamos p’rá frente, ajudar é gente desta”! Daí a minutos tinha em meu poder uma nota de encomenda com as assinaturas do Patrão e do Encarregado que, como documento histórico que é, se encontra encaixilhada no gabinete da gerência da CUTIPOL.
É a requisição nº 819 e tem a data de 24 de Outubro de 1952. Era de tal ordem que deu para trabalhar dilatados anos. Assim começou a época que se estendeu como a “légua da póvoa” e que permitiu trabalhar de dia, e quantas vezes de noite, para aquela afamada casa.
Mais uma vez, Deus escreveu direito por linhas tortas. As duas nulidades que me queriam asfixiar, empurraram-me, sem o querer, para a senda do sucesso. P’raí andam a arrastarem-se ingloriamente sem que se lhes vislumbre uma centelha de espírito a dar significado à vida…
E assim começou a “pré-história” da CUTIPOL que só apareceria 12 anos mais tarde mas isso é outra “Nau Catrineta” que tem muito que contar… Pode ser que um dia me resolva a fazer o relato!

Longos,
1 de Setembro de 2002

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