A “pré-história” da CUTIPOL (XXVIII)
Quarta-feira, Outubro 2, 2002

Desta vez, completam-se os cinquenta anos do meu “grito do Ypiranga” que aconteceu naquele já distante primeiro dia de Setembro de 1952, em que me decidi a trocar a condição de operário pela de empresário. De operário e não de trabalhador pois esta, que tinha desde tenra idade, continuou e ainda me obrigou a juntar ao esforço físico, inerente ao exercício do trabalho braçal, o do foro mental em que qualquer empresário responsável é “condenado” a investir.
Era o fadário que uma tradição dos meus antepassados me obrigava a cumprir.
Como já tive ocasião de recordar, foi em plena vida militar que, de forma mais aviada, tive de encarar essa concretização, aproveitando a oportunidade para conhecer as casas que se dedicavam ao comércio de facas, garfos e colheres.
Verificava-se, por esses tempos, um fenómeno de transformação no domínio comercial desta actividade. Os talheres, que eram, desde tempos imemoriais, comercializados pelas casas de ferragens, passavam, de forma avassaladora, a ser explorados e a integrarem-se no domínio das louças e vidros de que era paradigma e protótipo a famosa Casa Brás & Brás que toda a Lisboa de então conhecia e procurava, em multidões impressionantes, para resolver qualquer problema referente às necessidades de artigos para o lar. A minha condição de condutor–auto, permitia-me a frequentes vezes visitá-la quando transportava o Sargento Marvanejo, ecónomo da minha unidade militar, ao dirigir-se à Baixa para adquirir artigos necessários para a vida do quartel.
Assim, tive ocasião de conhecer os “cantos à casa” como se costuma dizer e de me relacionar com o chefe de compras da loja do rés-do-chão, Zé Moreira, que ainda hoje mora na minha saudade e que tanto, mais tarde, iria estar ligado à minha vida.
Faltavam uns dois meses para abandonar a tropa e um encontro fortuito iria adiar, por um ano, o arranque que eu tinha planeado para acontecer logo após o meu regresso à vida civil.
Tinha aberto a Feira Popular do ano de 1951, há poucos dias e, uma noite quente de Verão em que despreocupadamente passeava na sua alameda Central, na companhia de amigos de Metralhadoras 1, cruzo-me com um pequeno industrial de Sande que, de chofre, me desafiou a desviar-me da rota que, de há muito, tinha traçado para o meu futuro, pois precisava da minha colaboração para pôr em ordem a secção de armazém que estava num caos.
De forma franca e leal desvendei o meu sonho de que me ia lançar no ramo empresarial que ele explorava. Que estava bem, mas com certeza não seria logo, logo, que deixasse a condição militar de que sabia estar à vista a meta final, no espaço de dois escassos meses. Lá me convenceu a dar o sim mas logo o avisei que não seria por mais de um ano, tempo suficiente para lhe resolver o problema que o afligia. Presumo que julgou que a lei do menor esforço me levaria a esquecer o meu sonho e que uma vida de menos responsabilidade, tanto mais que eu era ainda solteiro, – só me casaria um ano após me estabelecer – me anestesiaria a genica , indispensável a um jovem de 22 anos para “se atirar à vida”.
Como a minha maneira de ser não era de desistir; como eu sabia, muito antes de o poeta o afirmar, que “é o sonho que comanda a vida”, passado um ano, contado dia por dia, atirei-me, sem paraquedas, neste mundo tão complicado e cheio de imprevistos mas tão apaixonante pelos desafios que nos coloca, que é o da vida de empresário.
É certo que eu sabia que uma dose de espírito de aventura não dispensava uma postura consciente de prudência e juizo. A preparação que levava do exemplo da casa paterna com uma experiência de trabalho estóico e perseverante; a inclinação para o belo e para a perfeição – como me fez bem a leitura de um livro do pedagogo americano, O. S. Marden com o título “Sê perfeito em tudo o que fizeres”, oferta, como prémio, do meu professor! -; a “falta de hábito” em desbaratar dinheiro que não tinha – talvez daí não me ter viciado no tabagismo e no jogo! – ; a oportunidade em beneficiar do bom nome do meu Pai que gozava no meio dos fornecedores da fama de ser homem de palavra, cumpridor integérrimo dos seus deveres no domínio dos pagamentos e dos seus compromissos e não só, todo este conjunto de circunstâncias se reuniram para poder encetar a nova fase da vida com uma confiança sólida e sustentada.
E lá comecei, ali nas Pontes, num pobre barraco, com meia dúzia de trabalhadores de que, passados cinquenta anos, ainda tenho a alegria de contar com a presença e colaboração de um, o Manel Gonça, um caso emblemático de dedicação à casa!
(Continua…)

Longos,
1 de Setembro de 2002