PUB
Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Apesar de na tomada de posse ter declarado publicamente que nunca se valeria do governo anterior para justificar as medidas políticas que viesse a tomar, a verdade é que não foi preciso esperar muitos dias para todos ficarmos a saber que afinal este governo PSD/CDS, liderado por Pedro Passos Coelho não é diferente dos outros que o precederam.

Para justificar a necessidade da sobretaxa sobre o subsídio de Natal, o governo deitou mão a um hipotético e ainda não demonstrado desvio nas contas públicas, apesar de o mesmíssimo Pedro Passos Coelho ter antes dito que o PSD estava preparado para lidar com todos os dossiês, que conhecia pormenorizadamente. Aliás, em Maio, os técnicos do FMI que devassaram as contas públicas portuguesas registaram no acordo de entendimento com a troika o estado em que as encontraram e, projectando-as até ao fim do ano, estabeleceram a meta aceitável do défice, sem que, então, nem PSD nem CDS suscitassem reservas aos quadros exibidos que assinaram voluntária e livremente.

Uma delegação do FMI vem cá brevemente em visita de fiscalização e há quem espere que daí resulte a clarificação do desvio…colossal. Eu não espero que isso aconteça, por uma questão de diplomacia. É que o PSD chamou anjinho ao FMI, ao denunciar que este não foi capaz de ver o que ele, PSD, não teve dificuldade em descobrir!

Mas o mais grave deste episódio não é a criatividade do PSD ou a fuga ao prometido por Passos Coelho. A isso já estamos habituados e não estranhamos. Grave mesmo é a injustiça da medida.

Quem, mais uma vez, é obrigado a contribuir para cobrir o tal buraco são os trabalhadores por conta de outrem e os reformados. De fora, ainda mais uma vez, ficam os rendimentos do capital, os juros, os dividendos, os lucros. As explicações do ministro das finanças confirmam-no e mostram que o capital fica de fora por opção clara do governo.

O mesmo governo que depois dessa malfeitoria aos trabalhadores e aos reformados decidiu aumentar os transportes públicos, agravando nalguns casos o preço dos bilhetes até 25% e se prepara para fazer o mesmo noutros bens essenciais, como a água.

O mesmo governo que, depois de prometer reduzir à despesa pública, aumentou o número de administradores da Caixa Geral de Depósitos, nomeando um dos seus economistas de serviço, um dos que nos jornais e na televisão gasta o tempo a dizer que é preciso reduzir, é preciso cortar, enquanto soma e segue nos lugares de administração, fazendo-nos pensar como é possível estar em tantos cargos ao mesmo tempo…e pagos. Uma versão moderna do olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço.

A procissão ainda não saiu da igreja, mas pelos sinais que vão surgindo restam poucas dúvidas que este governo tem de ser derrubado pela resistência das suas vítimas. Já.