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Já ouviu falar em livros «AH!»?
Domingo, Junho 2, 2002

Com uma ligação efectiva e afectiva à biblioteca e ao seu suporte tradicional- o papel transformado em livro, à leitura de um livro, tantas vezes (re)lido, degustado até, associa-se o prazer concreto da escrita, do diálogo com as palavras, do jogo de sentidos em permanente construção… lidos ou escritos.
Há dias estive num fórum em que o tema central era as Bibliotecas, ou como agora mais correctamente se intitulam os Centros de Recursos, já que aí se reúnem acervos documentais em suportes diversificados: audiovisual (vídeo, cassete, CD, DVD), papel (livro, revista, jornais), informático (disquete, CD Rom, Internet).
A troca de experiências é sempre frutífera e proveitosa e, por isso, dei por bem empregue o tempo que aí despendi. Sou daquelas que procuro a formação que quero receber (muito embora possa não me dar créditos!) e, quando dela posso extrair alguma coisa de útil e de proveitoso para o trabalho pedagógico do dia-a-dia, sinto-me satisfeita. Contento-me com pouco, dir-me-ão, mas nos tempos que correm com tantos diz-se… diz-se/ faz-se…faz-se… os professores têm de se agarrar a qualquer coisa para manterem a sanidade mental. Não quero «descarrilar» nem «passar-me dos carretos», como modernamente se diz, e o livro continua a ser um amigo fiel de todas as ocasiões e de todas as épocas.
Pois foi precisamente nesse encontro que ouvi mencionar os «LIVROS AH!!!». Achei engraçado e, de imediato, comecei a reflectir sobre os livros que poderia rotular dessa forma, porque há muitos livros bons, há livros óptimos, assim como há livros maus e outros muito maus, mas… livros ah!!, que nos deixam boquiabertos e com vontade de os (re)ler uma e outra vez sem parar, esses são certamente uma meia dúzia. Claro que isso dependerá do leitor, como não podia deixar de ser. Um livro que me encha as medidas poderá não ser visto da mesma forma pelo meu vizinho… e vários serão os factores que intervêm na escolha: a idade, o nível sócio-económico-cultural, os interesses pessoais, entre outros.
Que serão os «livros ah!»? São aqueles livros que se lêem de um fôlego, tal o entusiasmo e a ânsia de chegarmos ao fim. Porém, quando o apetite é devorador, come-se a grande velocidade, ou seja, lê-se com demasiada pressa e, muito do que se lê, pode passar despercebido. Só depois, passada a urgência da «fome», e, esperando que a pressa não cause indigestão, nos sentamos a saboreá-los com requinte, debruçando-nos sobre os pormenores e deleitando-nos com as mensagens polissémicas que transmitem, invadindo-nos sentimentos e sensações quantas vezes contraditórios.
Um «Livro Ah!» pode gerar uma de duas atitudes: ou causa «polémica» e surge discussão que envolve várias camadas / facções sociais, como aconteceu com «O Evangelho segundo Jesus Cristo» de Saramago, ou é aceite por todos, o que é raro, mas acontece. Neste último caso, citaria «O que é- Imaginação» de Maria Alberta Menéres e «Como um Romance» de Daniel Pennac, ambos no campo da Pedagogia (que me atrevo a dizer serem obras de leitura obrigatória para quem é professor, sobretudo de Português!) e, para citar de novo Saramago, o seu romance «Ensaio sobre a Cegueira», uma obra que considero magistral e que, como já disse numa outra crónica, me obrigou a fazer as pazes com Saramago. Contudo, não sou a única. Ainda outro dia me diziam que duas das melhores obras de literatura contemporânea (os tais livros ah!) eram a que citei e «Amor em tempo de cólera» de García Marquez, opinião que perfilho plenamente.
E, porque vos falo sobre «livros ah»!, recordo uma questão tão em voga actualmente, a da literacia, ou seja, «a capacidade de compreender e usar todas as formas e tipos de material escrito (entre eles o livro, claro!) requeridos pela sociedade e usados pelos indivíduos que a integram». Obrigatoriamente, esta reflexão leva-nos por outros caminhos – será que a escola prepara os alunos para a aquisição das competências que os levem à tal literacia? E, uma outra questão premente, será que é à escola que está entregue esse trabalho, atendendo aos «famigerados» programas?
Quando feita uma análise aos resultados tão apregoados do estudo feito pela OCDE sobre a literacia dos jovens portugueses, colocados na cauda da Europa, esqueceram-se de mencionar que no tipo de textos que os jovens estudam nas nossas escolas, o texto narrativo por exemplo, eles ficaram acima da média da OCDE, mesmo acima de países como a França.
É fácil compreender o que está mal! E não admira que a «reorganização curricular» tenha um gigantesco senão. É que foram colocadas cá fora as competências gerais, transversais e essenciais que os alunos devem adquirir ao longo do Ensino Bá-sico, mas esqueceram-se de que os programas nacionais não sofreram modificação, são os mesmos. Apenas se mudou de um ensino por objectivos para um ensino por competências.
Mas não quero falar agora sobre tal assunto que daria pano para mangas, pois que a reorganização curricular enfrenta no presente uma grande interrogação. Com a mudança de governo e de atitude perante a educação, que entram em contradição com o até agora estipulado – exames nacionais no 9º ano (??), esta reorganização não virá a ser recordada como mais uma das tentativas frustradas de Reforma do Sistema Educativo Português? O tempo o dirá. É só esperar para ver!!