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Só não há alternativa para a morte
Sábado, Maio 7, 2011

Há dias, em mais uma encenação para papalvo ver a que as televisões, solícitas e reverentes, deram grande cobertura e destaque, a que nem sequer faltou a conveniente repetição nos dias seguintes, para chegar ao maior número possível de telespectadores, o senhor primeiro-ministro, perdão! o secretário-geral do PS deu à luz um nado morto pronta mas impropriamente baptizado como programa a apresentar às eleições de 5 de Junho próximo.

Seria bom que antes de votar – e sobretudo, antes de nele votar – os cidadãos que me estão a ler dessem pelo menos uma vista de olhos, por todas as razões.

Primeiro, porque poderão confirmar com os próprios olhinhos que o PS se apresenta imaculado, como se não tivesse as mãos manchadas de sangue dos milhares de mulheres e homens que mandou para o desemprego, quando no programa anterior prometeu recuperar 150.000 empregos. Ou como se não tivesse aumentado os funcionários públicos na véspera das eleições de 2009, para em 2010 e 2011 lhes retirar mais do que lhes dera. Ou como se não tivesse tido o a “coragem” de reduzir as pensões de reforma a quem recebe pouco mais do que 200 euros por mês.

Nem José Sócrates nem o PS fazem um esforço, mesmo que pequeno, para pedirem desculpas por terem prometido uma coisa e feito o seu contrário, por encherem a boca com o “estado social”, acusando a direita e em especial o PSD de o quererem destruir, e a seguir, friamente, metodicamente, adoptarem mediadas que destroem esse mesmo “estado social”. Caso da vergonhosa legislação sobre o subsídio de desemprego, sobre o abono de família, que atinge os economicamente mais débeis.

Segundo, porque poderão confirmar que o PS insiste em políticas que nos conduziram ao desastre. Nenhuma medida para reanimar o mercado interno por via do aumento do poder de compra dos cidadãos, em particular daquela parte dos cidadãos que não vai ao estrangeiro comprar nem vai de férias para fora, gastando o que recebe, em salários e reformas, cá dentro.

José Sócrates disse recentemente que estamos a viver a pior crise dos últimos 100 anos, com isso pretendendo fazer crer que alguma coisa muito superior a nós e exterior a nós é culpada do estado a que chegamos. Às vezes o secretário-geral do PS, ou teria sido o primeiro-ministro, não sei bem porque umas vezes fala numa qualidade outras noutra, conforme lhe dá mais jeito, fala verdade, e esta é de facto a crise mais grave do capitalismo dos últimos cem anos. Mas a crise internacional apenas pôs a nu mais depressa do que ele quereria a crise nacional, a crise que resulta de opções políticas erradas praticadas pelos governos dos últimos 34 anos, o que engloba governos do PS, do PSD e do CDS. Basta estudar as estatísticas do Banco de Portugal para não restarem dúvidas: nas últimas três décadas, a taxa de crescimento média da economia portuguesa raramente foi superior a 1% ao ano, o que sem mais nenhum outro indicador prova que a nossa crise, a crise de que os nossos governantes são os únicos culpados já existia antes de 2008, o ano em que rebentou a crise internacional, lembram-se? E quem era o primeiro-ministro, lembram-se? José Sócrates, claro!

Mas há uma razão maior para ler atentamente o dito programa do PS. Nele, nem um parágrafo, nem um capítulo, nem uma singela referência às medidas de austeridade que vêm aí se os eleitores se deixarem iludir pelos dotes dos pregadores José Sócrates, Passos Coelho ou do falinhas mansas do Paulo Portas. Nada sobre cortes nos salários, nada sobre cortes nas reformas, nada sobre aumentos do IVA, nada sobre o fim das deduções à colecta no IRS com a habitação, a saúde e a educação. E no entanto elas estão na forja desde os dias do falecido e recuperado PEC IV.

E não é por esquecimento que o programa do PS e o programa do PSD vão passar ao lado das medidas de austeridade. E também não é porque as rejeitam: é porque deixam esse papel sujo, desagradável e impopular para o FMI, a quem abriram as portas, a quem chamaram para que sejam outros, que não vão a votos, a ficarem com a obrigação de desempenhar a função de carrasco, enquanto PS, PSD e CDS, se apresentarão como santinhos.