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Crónica da Páscoa
Terça-feira, Abril 6, 2010

Não há qualquer dúvida: apesar de todas as notícias e ameaças sobre o aquecimento global, este Inverno tem sido terrivelmente frio, longo e chuvoso. Dias e dias quase sem ver o sol. Noites seguidas ouvindo e sentindo a chuva. Meses sem conta com a humidade a entranhar-se lentamente nas paredes, no corpo e na alma.

Não faço a menor ideia se isso tem ou não alguma relação com o clima que vivemos de alguma crispação política, de alguma descrença no presente e de muita incerteza quanto ao futuro. A verdade, evidente e indiscutível, é que atravessamos um período de profunda crise social, marcada por um negativismo atávico, a fazer lembrar outros períodos decadentes da nossa História. Se não tomarmos medidas, o que começou por ser “apenas” uma crise financeira e se tornou numa profunda crise económica, deriva agora para uma crise de desemprego, com o risco de se chegar a uma crise humana, com implicações políticas e sociais muito graves. As medidas de relançamento devem ser determinantes, pois ninguém sabe verdadeiramente o que se vai passar.

A verdade é que hoje não estamos sós. E talvez isso também nos console ou nos dê algumas forças para enfrentarmos mais energicamente os tempos que se avizinham. Por outro lado, as crises dos vizinhos, ainda que distantes, as catástrofes que ocorrem no outro lado do mundo, têm cada vez mais tendência a cristalizar-se nos nossos próprios temores, como se tudo se passasse na nossa cidade, na nossa aldeia, na nossa rua, na nossa casa. Assim se explicam muitas impressões de medo, e sobretudo de insegurança, que surgem em muitas pessoas e localidades onde reina a maior calma e sossego.

Real ou imaginária, imaginária e real, a verdade é que atravessamos uma época de grande turbulência, de crise, de falta de confiança, de dúvida, de descrença. Independentemente das medidas e estratégias – nacionais, europeias, internacionais – necessárias para ultrapassar esta situação, pelas quais esperamos e desesperamos (se tivermos em conta as amostras tão frágeis e vagas que têm sido apresentadas), eu quero acreditar que o fim do Inverno vai trazer essa energia tão necessária à mudança.

Por isso, anseio pela Primavera. Não aquela que o calendário lunar nos trouxe, talvez por engano, no passado dia 21 de Março. A verdadeira. Aquela cuja seiva faz ressuscitar, secretamente, a natureza. Na secreta esperança de que ela transborde do reino vegetal e nos ressuscite também desta letargia invernal. Afinal é isso a Páscoa. Para além dos coelhinhos de chocolate, dos ovos e das amêndoas do costume – se bem que, diga-se, também estes elementos estejam intimamente ligados com os ritos de (re)nascimento e de ressurreição –, há uma espécie de força cósmica, profunda, que anima esta quadra pascal. No tempo pré-mosaico (ou pré-moisaico, ou seja, antes de Moisés), ela era apenas a festa dos pastores nómadas pela chegada da Primavera. Apesar da lonjura dos tempos, aproveitemos esta energia (acreditemos que ela existe) para saudar e celebrar estes novos tempos. Quem sabe se eles serão mais profícuos do que os Planos e Projectos que nos prometem, diariamente, um Paraíso a médio prazo, mas nos oferecem um Inferno (ou um Purgatório, vamos lá!), verdadeiro e quotidiano.