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Crónica da Europa e das Línguas
Terça-feira, Fevereiro 9, 2010

Paris vaut bien une messe. – Parafraseando a frase em epígrafe, atribuída a Henrique IV (1553 – 1610), Paris vale bem uma crónica. Seria uma pena vir à cidade-luz e não deixar que as musas do Sena nos afaguem com o seu sopro criador. Talvez elas até estejam simplesmente dentro de nós, na nossa história e na nossa memória. Mas que importa? Desde que a energia inspiradora nos embale a vontade, que interessa o lugar das musas?

Começo, pois, por escrever de Paris, onde me encontro para participar num Colóquio sobre “a Europa dos 27 e as suas línguas”, que decorre na Universidade de Paris 7. Discute-se, por aqui, o lugar das línguas no espaço europeu e a forma como a União Europeia pode conviver com tamanha diversidade cultural e linguística. À medida que a União se alarga são cada vez mais as línguas que dela fazem parte. Neste momento são já vinte e três as “línguas oficiais” embora, como se sabe, nem todas tenham, de facto, o mesmo estatuto nem o mesmo tratamento. Em rigor, quer nas diferentes instituições comunitárias quer nas relações entre os Estados Membros são duas, talvez três, as línguas de comunicação quotidiana. As restantes, oficiais, ficam a aguardar que o batalhão de tradutores se ponha em marcha e faça o seu trabalho, traduzindo, pelo menos, os documentos julgados mais importantes.

Por outro lado, para além dos milhões de europeus que falam as “línguas oficiais”, há cerca de cinco milhões que dizem falar, no seu quotidiano, uma das muitas línguas chamadas “minoritárias”, “minorizadas” ou simplesmente “regionais”. É o caso de Portugal onde uma pequena minoria continua a utilizar a língua mirandesa como instrumento de comunicação, continuando esta língua a dar corpo a uma cultura portadora de muitos valores e de muitos mais mitos.

É possível que utopia de uma língua única, perfeita e universal, de que o Esperanto, criado em 1887, por Lejzer Zamenhof, é o exemplo mais conhecido, continue a deslumbrar e a cativar muitos espíritos europeus. Mas adoptar apenas um idioma, natural ou artificial, como língua de comunicação internacional ou universal, seria esquecer a energia e a espessura cultural que as línguas representam. É que uma língua é muito mais do que um simples instrumento de comunicação. É um património, portador de memória, construído sobre uma experiência histórica singular. Nenhuma língua é supérflua. Nenhuma é dispensável.

A este propósito vale a pena citar a historieta que é contada sobre o Parlamento Europeu. Diz-se que uma das primeiras recomendações dadas aos novos eurodeputados é para não fazerem, no plenário, muitos trocadilhos linguísticos e muito menos contarem anedotas nas suas línguas. É que a tradução arrisca-se a ser complicada ou, pelo menos, a fazer com que as gargalhadas só cheguem passados uns minutos, quando a graça já tiver passado.

Seja como for, a verdade é que a União parece ter feito a escolha da diversidade, com todos os riscos e dificuldades que isso acarreta, mas também com os desafios que isso representa e que é preciso enfrentar. O respeito pela diversidade linguística não se pode limitar à constatação de uma herança cultural produzida pela História. Ele é o fundamento do próprio ideal europeu, e é um poderoso antídoto contra todas as afirmações identitárias baseadas nos interesses individuais (embora muitas vezes bem disfarçados de colectivos), no medo do outro, ou seja, na xenofobia. Mas esse desafio implica opções políticas, económicas, linguísticas, culturais e sociais que não podem ficar pelas simples declarações de intenções. Desde logo, se concedêssemos a todas as línguas o lugar que elas legitimamente merecem os custos tornar-se-iam certamente incomportáveis. Então como conciliar esta diversidade, nomeadamente na sua vertente multilingue, com a necessidade de preservar, de aproximar, reconhecendo que as línguas são a nossa memória e a memória do mundo?

São estas e outras questões que se discutem neste Colóquio e que se colocam aos europeus. Eles que devem ser cidadãos poliglotas, intrinsecamente plurais, justamente na medida em que são bilingues, trilingues ou quadrilingues. O multilinguismo significa sobretudo misturar, cruzar, respeitando o outro nas suas particularidades e nas suas diferenças. Ora, as línguas e as culturas europeias encontram-se, muitas vezes, demasiadas vezes, apoiadas nestas diferenças. Por isso, este oceano de diversidade não pode fazer esquecer a torrente profunda – de que a língua latina é apenas um exemplo – de onde pode e deve emergir uma verdadeira cultura europeia, assente na pluralidade. Por isso, as línguas são perfeitas porque são plurais. O contrário, baseado no “globish”, seria a mentira, seria a negação das nossas identidades, porque a verdade é múltipla, jamais única e muito menos definitiva.

António Bárbolo Alves
Paris, Miranda do Douro, Dezembro de 2009, Janeiro de 2010