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  SAÚDE   A medicina no desporto
Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

Numa abordagem inicial, Medicina e Desporto parecem estar muito dissociados, porém encontram-se estritamente relacionadas, sendo o Ser Humano em toda a sua essência, a base e o elo comum. Um dos principais objectivos de ambos relaciona-se com o alcançar de um ideal de saúde, definida pela Organização Mundial de Saúde como o estado de bem-estar físico, mental, psicológico e social da pessoa, sendo este conquistado e acumulado ao longo na nossa vida.

A Medicina corresponde à ciência do conhecimento humano ligada à manutenção e restauração da saúde, que trabalha na prevenção e cura das doenças humanas. O Desporto corresponde a qualquer forma de actividade física sujeita a determinados regulamentos que visa a competição entre praticantes, recreação e o aumento da condição física em geral.

Apesar de todos os seus benefícios, a actividade física, deve também ser encarada como uma “agressão” ao corpo humano. Ao realizarmos exercício físico estamos a submeter o nosso organismo a uma actividade muito mais intensa que o normal, caracterizada por um aumento do número de contracções musculares e da intensidade de cada contracção. Ao nível dos ossos e articulações um número muito maior de movimentos vai provocar impactos múltiplos e mais violentos. A nível psicológico, há uma exigência aumentada de concentração e de espírito de esforço quando comparada com a necessária para a nossa vida diária. Tudo isto vai provocar um consumo muito maior de energia e consequente aumento da sua produção, assim como variadíssimas lesões, desde as mais pequenas células até aos grandes grupos musculares, que vão exigir uma produção aumentada de células novas e mais fortes de forma a que estas lesões sejam corrigidas e prevenidas. Esta adaptação estrutural e funcional que o nosso organismo experiencia vai ser responsável pela elevação dos nossos parâmetros físicos, que todos nós adquirimos quando praticamos exercício regularmente.

Esta exigência aumentada da actividade física, pode porém, estabelecer um ponto em que os caminhos da Medicina e do Desporto deixam de ser paralelos e passam a cruzar-se. Estes pontos de cruzamento, correspondem a momentos em que as capacidades adaptativas de um indivíduo foram ultrapassadas pela exigência da agressão e resultam numa variedade de doenças / lesões musculares, esqueléticas, orgânicas, metabólicas e psiquiátricas, ou em casos muito extremos em morte. Assim, tal como um médico prescreve uma terapêutica (tipo, dose e frequência) para determinada patologia, é essencial que seja aferida a aptidão ou inaptidão dos atletas para a prática desportiva.

Quando existe uma limitação, anomalia congénita ou doença, não significa que essa pessoa está proibida de realizar qualquer actividade física, na verdade, são muito poucas as situações em que tal acontece. Existe sim, uma indicação para cada situação. Na osteoporose, por exemplo, devem-se realizar exercícios com carga de forma a prevenir a progressão da doença, não sendo indicados exercícios aquáticos em que a carga é mínima. No entanto, se estivermos a falar de uma osteoartrose no joelho, o exercício com carga já está desaconselhado, sendo a natação ou hidroginástica exercícios recomendados. Mas de que serve a natação ou qualquer outro exercício se ele for mal realizado ou se não se souber realizá-lo? Muito pouco ou ainda mais certo para piorar a situação.

O Exame Médico-Desportivo, tem um papel fundamental neste contexto, tendo a finalidade de declarar a ausência de quaisquer contra-indicações ou limitações para a prática desportiva ou de um desporto em particular, sobretudo na população mais jovem. Sendo uma opção pessoal para o praticante comum, constitui uma obrigação para todos os atletas, árbitros, juízes e cronometristas inscritos em federações desportivas. Estes exames podem ser realizados por qualquer médico com formação adequada, excepto nos casos em que se identifiquem contra-indicações relativas que exijam um aconselhamento médico-desportivo, devendo nestes casos os atletas serem encaminhados para a delegação do Centro Nacional de Medicina Desportiva (CNMD) da respectiva área geográfica de intervenção ou serem observados por um médico pós-graduado / especialista em Medicina Desportiva. Na área de Guimarães existe o Centro Médico de Apoio ao Desporto (CMAD) localizado junto à Pista de Atletismo Gémeos Castro.

O exame deve iniciar-se por uma filtragem de possíveis factores de risco através do estudo dos antecedentes familiares, pessoais e desportivos. De seguida realiza-se um exame físico completo abordando-se os vários aparelhos e sistemas do nosso corpo procurando desvios à normalidade que possam condicionar a prestação física. Por último, são pedidos os exames complementares de diagnóstico que o profissional de saúde pense serem pertinentes.

Faça desporto, usufrua de todos os seus benefícios, mas sempre de uma forma segura e esclarecida. Mesmo quando existem limitações, não é legítimo privar uma pessoa da sua prática moderada, embora sob orientação e supervisão médica.

Rui Guedes
Médico da USF de Ronfe
Pós-graduado em Medicina Desportiva