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Crónica da política, dos políticos, do Estado e do povo
Sábado, Novembro 7, 2009

“O vitupério vil das rudes gentes
é louvor dos reais e sublimados.”
Luís de Camões

No período eleitoral que se avizinha a grande tentação para um cronista parco em ideias, como será o meu caso, seria de zurzir nos políticos, de se queixar, de reclamar contra tudo e contra todos. Embora não disponha de nenhuma análise científica que me permita garantir que assim é, creio que será esse o tema dominante em muitas crónicas escritas e nas muitas vozes, audíveis ou não, que pululam à sombra deste Outono estival. O meu espírito de contradição leva-me, porém, a resistir à tentação da manada. A lógica do bota-abaixo, casada com a pequenez da ciumeira e de mãos dadas com a inveja, tão disseminada quer pelos pasquins da nossa ignorância quer por algumas arenas e terreiros onde se disserta sobre o futuro do nosso país, não pode tolher-nos a razão nem arrastar-nos pelos caminhos do cepticismo, do facilitismo destruidor, tão imbecis que nem chegam a ser molestos.

Outra atitude muito em voga, que aparece travestida de racionalismo militante, com ares de pesporrência e tiques de superioridade, é aquela que defende que “nada há a fazer”, ou que “mesmo que se faça” tudo será como dantes pois “eles são todos iguais”, se um “é corrupto os outros também são” e “se este já se encheu agora que vá para lá outro”. E assim se vai andando na paz dos anjos, considerando que não fazer nada é justificável, porque não há nada que se possa fazer para mudar.

Mas também não quero cair na armadilha de advogar que a culpa é do povo ignaro, rude e ingrato cuja malquerença é, na pena sublime de Camões perante o desconcerto do mundo, sublimação dos grandes homens. Detenhamo-nos, pois, nesta peculiar relação que os portugueses têm com a política, os políticos e sobretudo com a “res publica”.

Parafraseando o título de uma obra recentemente editada em França, a forma o povo português vê os políticos e a política não é em nada comparável ao “divórcio sem consentimento mútuo” que se verifica noutros países. Em Portugal até se gosta dos políticos. A prová-lo estão as grandes enchentes à volta dos comícios – que não ficam apenas a dever-se à música que anima as primeiras partes – e também as pequenas multidões que acompanham as arruadas e rugem à sombra das bandeiras partidárias. E até haveria razões sobejas para o divórcio. Portugal não tem, na sua curta tradição democrática, nenhuma escola de políticos nem de dirigentes da “coisa pública”. Seria, por isso, natural que o povo se insurgisse mais veementemente contra a falta de qualidade dos nossos governantes. Porém, a meu ver, o divórcio português não é com os políticos, é com o Estado. Mas é um divórcio sui generis, como veremos.

O Estado é, para a maioria dos cidadãos portugueses, uma espécie de Big Brother promovido ao estatuto de Deus. É omnipresente e omnipotente. Eles, humildes servos, pouco ou nada podem fazer a não ser usufruir das benesses que o Estado lhes dá. O reverso e a contradição deste estado de coisas é que estes mesmos cidadãos, julgando o Estado uma entidade todo-poderosa, crêem igualmente que tudo podem fazer contra a sua ilimitada capacidade. Por isso, há em Portugal, um desprezo enorme pela coisa pública. O que é de todos parece que não é de ninguém. Em contrapartida, isso explica que a cleptocracia instalada em alguns círculos da nossa sociedade – não quero generalizar pois, como dizia o fiel escudeiro do grande Dom Quixote, até no inferno haverá gente boa – seja tão bem tolerada pelo “bom povo português”. O Estado é grande e tudo pode perdoar!

É claro que estes argumentos não podem servir o ideário daqueles que defendem menos Estado, mas apenas para colocar nas mãos de poucos aquilo que, em rigor, é de todos. Não precisamos de menos Estado. Precisamos de mais Estado. Mas necessitamos igualmente que cada cidadão se sinta tão responsável por aquilo que é dele como por aquilo que é de todos. É esta a chave da educação para a cidadania. Só assim seremos um verdadeiro povo, na acepção que Cícero, o criador do conceito, lhe atribuiu, uma multidão unida pelo consenso do direito e da utilidade comum e não de qualquer maneira. O “bom povo português”, quer seja rude e ignaro, como muitas vezes é descrito, quer puro e simples como o imaginavam os românticos, precisa tanto de olhar com outros olhos para a política e para os políticos, reclamando boa governação, como para ele próprio, exigindo que aquilo que é de todos seja tratado como se fosse seu. Ou, por outras palavras, perguntando o que é o Estado faz por cada um de nós e respondendo com aquilo que cada um de nós faz pelo Estado.

Miranda do Douro, 27 de Setembro de 2009