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Apanhar o comboio
Quinta-feira, Outubro 29, 2020

Faz parte do ciclo normal da actividade partidária local incluir no discurso programático a urgência de uma ligação ferroviária entre Guimarães e Braga. Nem sempre este discurso ou necessidade teve a correspondência das diferentes forças político partidárias, mas nos últimos tempos esta vontade passou a constar em quase todos os programas eleitorais. Constatação de um facto e de uma lógica pouco coerente por quem procura alinhar desejos à posteriori, depois de ignorar a oportunidade de os concretizar enquanto membros de partidos responsáveis pelos sucessivos governos da Nação. Desvalorizando os interesses e apetites que algumas forças partidárias vão mostrando em períodos mais ou menos idênticos, coincidindo sempre com a aproximação de momentos eleitorais, o que é certo é que, mesmo perante esta fragilidade nas convicções, serão sempre bem-vindos para a causa todos os que com ela se identifiquem. Como é costume dizer-se a união faz a força apesar das diferenças conhecidas. Para manter a cadência da exposição destas vontades, veio a publico a aposta do município vimaranense numa outra forma de ligação àquela que acima citei de ligação Guimarães Braga ou vice versa. Desta vez a novidade é a ligação ser efectuada por um Metro Bus, o que na prática, significa que será feita por autocarros, a circular numa via dedicada com dois sentidos e com separador central. É a modos que um metro de superfície mas ao invés de circular sobre carris tem rodado de pneus. Em abono da verdade as alternativas técnicas propostas vão variando mediante as soluções tecnológicas que vão surgindo porque ao contrário da indecisão final sobre a execução do que se pretende, o mundo pula e avança.

Enquanto nos entretemos a definir que processo devemos adoptar como o mais eficaz para o que se pretende, os anos e os orçamentos vão passando e a obra fica em banho maria à espera de tempos mais favoráveis.

Este mês, o governo anunciou um Plano Nacional de Investimento onde a ferrovia ocupa um papel primordial com a ligação em alta velocidade entre Lisboa e Porto cuja viagem terá a duração de 1 hora e 15 minutos. Neste Plano está também incluída a necessidade de reforçar a ligação ferroviária entre Portugal e a Galiza para viagens em alta velocidade. Esta via já tem um traçado que será adaptado e melhorado e como é fácil de constatar não passa por Guimarães, que fica afastada cerca de duas dezenas de quilómetros desta opção estrutural fundamental. Guimarães continua a sofrer os reflexos de políticas anteriores (nacionais e locais) erradas, de desinvestimento na ferrovia, algumas lamentavelmente consentidas pelos responsáveis autárquicos de então.

No mesmo pacote governamental foram contemplados 200 milhões de euros para a ligação entre Braga e Guimarães, e tendo em conta a unanimidade manifestada sobre este assunto, era bom que se encontrasse uma modalidade compatível e capaz de assegurar a ligação entre as cidades e, no caso de Guimarães, também à alta velocidade. Se assim não for corremos o risco de num futuro próximo vermos passar os comboios do futuro por um canudo.

Torcato Ribeiro, Outubro de 2020