PUB
A fortificação pré-romana do Coto do Sabroso
Quinta-feira, Dezembro 3, 2015

Situado a poucos quilómetros da vila de Caldelas, o monte de Sabroso, na área da União de Freguesias de Sande São Lourenço e Balazar, conserva os vestígios de um antigo castro, ou povoado fortificado pré-romano. A este monumento se refere a inscrição patente no memorial de Francisco Martins Sarmento, em Guimarães, em cujo pedestal se lê CITÂNIA e SABROSO, ladeando o corpo central. Embora o nome da Citânia de Briteiros tenha perdurado muito mais na memória coletiva, tendo em conta as dimensões excecionais do maior castro do Norte de Portugal, Sabroso foi um sítio arqueológico alvo de especial atenção do pioneiro arqueólogo vimaranense, devido aos achados arqueológicos particularmente interessantes que ali recolheu, mas também porque Sabroso conserva ruínas impressionantes das construções originais.

Optámos por denominar o local, no título deste texto, de “fortificação pré-romana”, em vez do popular nome “castro”, para realçar um fator determinante que faz de Sabroso um monumento peculiar e único. Tendo sido de facto um povoado, habitado por algumas dezenas de pessoas, era protegido por um sistema defensivo que fazia deste sítio uma fortaleza quase inexpugnável. Ainda hoje os investigadores se questionam sobre as razões que levaram uma comunidade aparentemente tão pequena a defender-se com uma fortificação tão impressiva.

A muralha principal, ou primeira muralha, suporta parte considerável das terras do interior do castro, atingindo mais de quatro metros de espessura, e mais de cinco de altura, em alguns pontos. Formava esta muralha um perímetro fechado, cuja entrada é, aliás, difícil de identificar, que em dada altura foi ampliado com a construção de uma segunda muralha. Uma e outra seriam rodeadas por um fosso. No interior da zona defendida existem indícios de cerca de dez unidades familiares, formadas maioritariamente por construções circulares, que se dispunham em plataformas artificiais suportadas por muros de pedra. O granito foi a matéria-prima primordial, usada na construção das muralhas, muros de suporte e estruturas de habitação, o que fez com que os vestígios desta povoação fortificada se tenham mantido ao longo dos séculos.

Estavam portanto bem defendidas as gentes que habitaram este local, que se pensa terem sido uma elite, membros da aristocracia local, nesses tempos remotos, algures no século III antes de Cristo, quando terá sido fundado o povoado, com a construção da primeira muralha. Talvez por isso, uma parte considerável da face externa da muralha foi revestida, em dada altura, por um cuidado aparelho poligonal. É este paramento obra de canteiros experimentados, e especializados, locais ou vindos de outras paragens e constitui ainda hoje um dos aspetos mais interessantes do monumento. Habitado durante a fase final da Idade do Ferro, o Castro de Sabroso terá sido abandonado no século I antes de Cristo, antes da integração definitiva deste território do Império Romano. Não se sabem ainda os motivos que levaram ao abandono de tão impressionante e estranha fortificação.

O Castro de Sabroso é Monumento Nacional desde 1910. Nos últimos tempos, iniciativas de várias entidades locais têm vindo a lutar por uma reabilitação condigna do sítio arqueológico. Um esforço conjunto da Sociedade Martins Sarmento e da Junta de Freguesia de Sande São Lourenço e Balazar, com o apoio da Universidade do Minho e do Município de Guimarães, permitiram a realização de trabalhos arqueológicos neste ano de 2015, o que já não acontecia desde 1981. As ações de desmatação mantêm-se ainda, procurando livrar o espaço da praga de mimosa que sobre ele se abateu desde há décadas. A pouco e pouco, Sabroso volta a mostrar a sua monumentalidade, esperando, num futuro próximo, reocupar o seu lugar na história vimaranense e portuguesa.