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Acordo UE-China. Precisamos de falar.
Quinta-feira, Janeiro 28, 2021

A União Europeia e a China assinaram no passado dia 30 de dezembro, em contra-relógio para cumprir os prazos de uma negociação que durava há já sete anos, um acordo de princípio sobre investimento.

Não posso deixar de notar, caro leitor, que este acordo é fechado numa altura nada menos do que caricata. Conforme tive já oportunidade de explicar nestas páginas, decorre neste momento uma guerra comercial mais ou menos aberta entre os EUA e a China, e, numa altura em que UE e EUA procuram retomar relações saudáveis e tão próximas quanto possíveis depois da eleição de Joe Biden para a Presidência dos EUA, seria de esperar que a UE aguardasse pelo retomar dessas relações para, quiçá, fazer uma frente comum para ganhar poder negocial e fazer frente à China, passe o pleonasmo.

Porque não esperou então a UE?

Na verdade há vários factores que explicam esta pressa, estando à cabeça o deadline estabelecido aquando do início das negociações, que ditava o fim das negociações caso não existisse um pré-acordo até 31 de dezembro de 2020. Mas este deadline não explica tudo, até porque é usual neste tipo de mega-acordos entre potências económicas renegociar prazos ou estabelecer novas metas. Na realidade, existem duas outras grandes razões para que isto tenha acontecido, caro leitor: o interesse de França e Alemanha em impulsionar investimento dos seus países na China, e a necessidade da UE em afirmar a sua autonomia estratégica em relação aos EUA, aproveitando também este timing para tentar conseguir um melhor acordo com a China, também ela interessada em mostrar aos EUA que não está disponível para travar a sua ascensão comercial.

Qual é então o problema deste acordo?

O problema está no facto de este acordo deixar a entender uma maior abertura para a deslocalização da produção industrial da UE para a China, sendo isto ainda mais grave numa altura em que a UE parecia apostada em fomentar a reindustrialização do continente e na diminuição da dependência dos mercados produtores asiáticos. Este acordo poderá ser particularmente lesivo para Portugal, tendo em conta que a nossa fraca abundância de capital não nos permitirá investir na China, pelo menos não em grande escala, e por outro lado podemos ver alguma da pouca produção industrial que ainda nos resta fugir para a China. Por outro lado, aquilo que se conhece do investimento Chinês na Europa passa muito pouco pela indústria e muito mais pelas novas tecnologias e serviços, isto é, retirando ainda mais valor a países como Portugal, que em momentos de crise tendem a vender activos importante e até estratégicos ao desbarato.

Não obstante o quadro que vos pinto, caros leitores, este é ainda apenas um acordo de princípio, acordo este que carece agora de milhares de horas de negociação técnica e que, após a sua finalização, carecerá ainda de aprovação nas instâncias europeias e nos parlamentos nacionais. Ainda muito falta saber e definir, mas, caro leitor, no momento em que escrevo não posso deixar de transmitir a minha preocupação com este acordo e a necessidade de uma discussão pública ampla na sociedade portuguesa e europeia. A europa, e particularmente países como Portugal, não se podem dar ao luxo de, após as duas crises catastróficas do Sec. XXI, estarem a cavar ainda mais fundo a sua sepultura económica.