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Acidentes mortais provocados pela colheita da castanha nas Taipas (séculos XVIII-XIX)
Quinta-feira, Novembro 22, 2018

Ao realizarmos a nossa investigação no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, nas últimas duas décadas, com vista ao estudo da História de Arte vimaranense nos séculos XVI a XVIII, compulsámos documentação que julgamos de interesse para a história das Caldas das Taipas. Consultando os livros de óbitos relativos à freguesia de São Tomé de Caldelas, deparamo-nos com dois acidentes mortais, provocados pela queda de dois taipenses de castanheiros, que ocorreram nesta freguesia nos anos de 1704 e 1808.

No primeiro caso, no assento de óbito redigido pelo Padre Gabriel de Matos, pároco de São Tomé de Caldelas, temos conhecimento que no dia 11 de outubro de 1704, Martinho Álvares morador no lugar da Faísca, da freguesia de Caldelas, morreu por ter caído de um castanheiro. Pela leitura do registo de óbito, sabemos que Martinho Álvares morreu subitamente, não podendo o pároco da freguesia lhe administrar os Sacramentos. Segundo o mesmo registo de óbito, sabemos que a sua mulher mandou celebrar um ofício de corpo presente “de hum nocturno” e de cinco padres, com esmola de 150$000 réis. O pároco refere que por Martinho Álvares ser pobre, apenas cobrou à viúva três tostões de oferta. Ao longo do tempo, os seus herdeiros mandaram realizar mais ofícios, na igreja paroquial (atualmente designada de Igreja Velha), que foram devidamente assinalados pelo padre desta freguesia, à margem do assento de óbito.

O segundo acidente encontramo-lo documentado a 11 de outubro de 1808. No assento de óbito registrado pelo Vigário Custódio José Fernandes Borges, pároco da freguesia de São Tomé de Caldelas, temos notícia que António José Marques, casado, morador no lugar do Alvite, faleceu repentinamente, por ter sofrido uma queda de um castanheiro. Este taipense não recebeu os Sacramentos “por não haver tempo nenhum”. Foi sepultado na Igreja Paroquial no dia 12 de outubro. O pároco afirma que por “ser pobre jornalareiro feçe-lhe hum oficio de corpo prezente pelo amor de Deos de nove Padres”.

Nestes dois acidentes mortais ocorridos nas Caldas das Taipas no mês de outubro, tempo da colheita da castanha no norte de Portugal, separados por mais de um século, podemos constatar a importância da castanha na alimentação da população mais carenciada no século XVIII e nos inícios da centúria seguinte. Curiosamente, estes dois acidentes tratam-se dos primeiros documentados de mortes ocorridas, durante a apanha do fruto do castanheiro nas Caldas das Taipas.