Acerca da Ponte de Prancheira, Pontilhão e para muitos, embora erradamente Ponte Romana
Segunda-feira, Março 12, 2018

Caldas das Taipas tem no seu território seis Monumentos Nacionais, que fazem dela a 25.ª localidade com maior número de MN dum país com 308 concelhos.

Um deles é a ponte de Caldellas sobre o Rio Ave aberta ao trânsito público em 17-09-1867, ficando assim concluída em toda a extensão a nova Estrada Real de Braga a Guimarães, porquanto pelo Decreto nº 11454 de 19-02-1926 vem a ser classificada como MN, a Ponte em granito com três arcos de volta perfeita no Lugar da Ponte sobre o rio Ave, nas Taipas.

A HISTÓRIA DA PONTE de Prancheira DESDE A CONSTRUÇÃO
No dia 26-09-1531, em Vereação do Município é dito, que foram ver a construção da Ponte e o corta-mar d’ella, para verem e o darem ao official que o fizesse, e que ora a mandaram lançar a pregão por Pero Diaz, que a trouxera a pregão, e lançou n’ella João Gonçalves, carpinteiro, 10$000 réis, e por os vereadores foi-lhe dito se queria obrigar-se a fazer o talho mor, se: «que as primeiras pedras da Ponte do talho mor serão todas inteiriças, de modo que da ponta para dentro, para o pé da Ponte serão de comprido de 7 palmas e de 6, de modo que não dando seu cumprimento de 6 palmos, e será tão longo para dentro como o talho mor, e logo a outra pedra em que entestara isso mesmo, será de largura do talho mor uma fia, e a outra será de duas pedras, e o mais até o pé da Ponte de Pedras muito bem lavradas e compridas, de modo que assim as fias como o entalhamento de dentro, será todo de pedraria graúda, e que juntem uma com as outras, e entre ellas se não meterá nenhum rebo, para que quando seja posto da muita água a dar no talho mor, que as escoras de dentro nas pedras grandes para que a água, não tenha força para lhe fazer nojo, e será d’altura das três fias do alicerce velhas que ficaram por cahir onde Vasco Pires, manda assentar altura de 12 fias, e pelo assim fazer bem feito e assentado, e lançado, e muito bem junto, de modo que o dito talho mor fique fixo e seguro a vontade dos moradores, e é assim como aqui lhe fazem menção lhe darão 10$000 réis» e o dito João Gonçalves se obrigou a fazer a dita obra.

Um mês e meio depois, a 07-11-1531, os vereadores municipais vão ver novamente a Ponte e novo corta-mar, e o procurador do concelho leva de comer aos officiaes, e dão juramento a Manuel Coelho que serviu de almotacé e garda mor.

Em 13-01-1787, são chamados à Câmara o juiz de subsino e residentes diversos, para se saberem quem tinha tirado uma pedra do Pontilhão. Desconfiava-se que tivesse sido o barqueiro ou alguém a seu mando, para que aquele barqueiro melhor pudesse levar a vida do seu negócio.

A 18-09-1811, em sessão da Câmara, sendo posto a laços o conserto de Pontilhão de Caldellas, conforme os apontamentos dados, foi o menor lanço 6$000 réis offerecidos por Balthazar Fontão, mestre pedreiro, de São Thomé de Caldellas, que se obrigou dá-lo prompto de pedraria e apromptar as cavilhas de ferro precisas para a devida segurança.

No dia 29-01-1964, a Junta de Turismo da Estância Termal das Taipas pede à Câmara que sejam colocados marcos próprios que impeçam a passagem de quaisquer veículos na Ponte, que dizem ser considerada monumento nacional.

Em 27-06-1974, a Comissão Instaladora da Universidade do Minho (criada pelo Decreto-Lei nº 402/73 de 11 de Agosto pela mão do Ministro da Educação Veiga Simão) debruça-se sobre o estudo da Profabril que tinha analisado 24 manchas em toda a região, de 21 agora 22 concelhos, decide-se pela implantação da mancha nº 5, situada a 14 Km. de Braga e a 6 km. de Guimarães, enquadrada em grande parte pelo Rio Ave, que lhe confere um enquadramento paisagístico de grande interesse, e pela estrada nacional que liga as 2 cidades, e tem duas pontes de ligação, a Ponte Nova e a Ponte de Prancheira, será unipolar, situa-se na freguesia de Ponte e intitula-se de Campus de Caldas das Taipas,

REFERÊNCIA TOPONÍMICA ANTIGA
Em  21-12-1703, é emprazada a Domingos de Freitas e sua mulher Domingas da Silva metade da metade do casal do Assento, de São Thomé de Caldellas, propriedade do Priorado do Mosteiro de Guimarães.  O prazo compreendia diversas propriedades, e muitos campos e leiras de cultivo, designadamente uma com o nome de Pontilhão.

No dia 14-06-1794, em vereação municipal fazem prazo a Francisco d’Oliveira Ribeiro, fabricante de toalhas adamascadas, justões e outros tecidos, para formar casa, para a fábrica do referido e officinas, no monte da Insua, em São João de Ponte, 400 varas ao longo do Ave e 600 de fundo, principiando na cabeça do nascente ao pé do Pontilhão estrada que vae para Braga direito ao poente, acabando ao pé de 2 penedos que estavam abaixo da levada dos moinhos.

A 23-02-1838, regista-se uma grande cheia no Rio Ave, causada por um grande temporal. Um caixeiro-viajante do Porto, ao passar no pontilhão a cavalo, salvou-se a muito custo o negociante, o macho afogou-se e as bolsas com 1.200$000 réis apareceram a vaguear a jusante.

REFERÊNCIAS POLÍTICAS RECENTES, EM SESSÕES DE ASSEMBLEIAS DE FREGUESIA DE CALDELAS
03-09-1982, o deputado Albino Rodrigues Lopes fala sobre a utilização ao trânsito da Ponte Romana sobre o Rio Ave devido à proibição do trânsito sobre a Ponte Nova em obras de alargamento, o que pode deteriorar a ponte, ao que o Presidente da Junta da conhecimento de que forneceu chaves para poderem passar, a título excepcional, aos Bombeiros e aos médicos que lhe solicitaram por escrito, mas que passados alguns dias apareceram derrubados os marcos e correntes de vedação.

29-04-1988, fala-se da limpeza e conservação da Ponte Romana, e dos Moinhos do Além, concluindo-se sobre a ideia de realizar um programa de protecção do Património Urbano.

16-07-1993, Carlos Manuel da Silva Marques, como Presidente da Comissão de Toponímia e da Heráldica da freguesia, dá a conhecer em primeira mão as armas do Brasão, Bandeira e Selo Branco: de verde, Ponte de 3 arcos de prata firmados nos flancos, realçada a negro, assente num pé de água de 6 faixetas ondeadas de prata e azul, sobreposta à Ponte uma fonte de ouro acompanhada em chefe de 2 rodas dentadas de 6 dentes de negro realçadas a prata, como mural de 4 torres de prata listel branco com a legenda a negro de Caldas das Taipas, explicando que a pretensão da junta era a da inserção da Ponte de Prancheira, mas que a Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos não aceitou, com a alusão de que teria de ser uma Ponte entendível em todo o mundo, e, por isso obrigou-nos a colocar a ponte de 3 arcos.

14-07-1995, O deputado João Marques da Silva, refere a falta de iluminação dos monumentos da freguesia, designadamente ao Penedo de Moura e Ponte Romana.

29-09-1995, O deputado João Pedro Freitas da Silva Ribeiro questiona sobre o arranjo do acesso à Ponte Romana.

29-04-1996, António Joaquim Azevedo de Oliveira, acha caricato a classificação de Ponte Romana.

17-12-1999, António Joaquim Azevedo de Oliveira refere que não há acesso do lado sul para a Ponte Romana.

13-07-2000, Ângelo Manuel Ribeiro de Freitas, diz que só se gasta dinheiro em Guimarães; que a Ponte foi destruída pelos de Guimarães,e pergunta pela falta de iluminação na Ponte. É este eleitor, que através dum trabalho que realiza no âmbito da sua licenciatura em Ciências da Educação, 2 anos depois, verdadeiramente desmistifica a denominação da Ponte, e faz disso eco pela sua sempre activa intervenção em diversas assembleias de freguesia.

A Ponte de Prancheira de Caldas das Taipas está classificada como uma das 50 mais belas das milhares de pontes existentes em Portugal. Se é tão bela, como de facto é, porque não está mais valorizada?

FINALMENTE, PARA QUEM GOSTA DE LER BELOS TEXTOS:

Publicado pelo Notícias de Guimarães em 14-06-1936
Como eu vi as Taipas: Lá longe, muito longe, a tuba sonora fizera ouvir o seu pregão: Quereis saúde, alegria, conforto e gozo? Ide às Taipas. – Escutei-a em sobressalto e com ânsia indizível de deleitar o meu espírito alquebrado pelo trabalho, abatido sob o peso das ilusões da vida, corri por essas terras além, em demanda do apregoado éden. Visitei cidades, vilas, termas e praias, centros de turismo, lugares de repouso onde nada faltava e a todo o momento me saía dos lábios esta exclamação bem sincera e sentida «como é belo o meu querido Portugal!» E correndo, correndo sempre, sinto que em dado momento uma visão maravilhosa susta o meu caminhar. Estava no coração do Minho, terra de magia sem igual. A montanha altaneira de suave recorte, em cujas anfractuosidades se anicham ermidas graciosas, magníficos solares com as suas produtivas quintas e frondosos bosques; vales fertilíssimos onde um povo alegre canta e ri, sempre labutando, e nédios rebanhos pastam, animados pelo gorjeio terno das avesinhas; edificações pesadas e amplas, donde o fumo se evola em densas ondas pardacentas, ameaçando o firmamento e o braço potente do homem produz, executa, fabrica tudo quanto a sua imaginação insaciável pôde idealizar; e murmuriantes, caudalosos cursos de cristalina água, de fertilizadora e interminável energia. Um sol doirado que um lindo céu azul torna ainda mais brilhante, reflecte seus raios luminosos em artísticos lanternins de inúmeras e elegantes casas de rigoroso estilo português. Ao longo de graciosas avenidas de copado arvoredo, donde as poeiras importunas foram banidas e artísticos canteiros de mimosas flores, cheias de frescura me deliciam com um doce perfume, elevam-se construções de arte, cuidadas com notável carinho, nas quais vive uma sociedade elegante e fidalga que dá à povoação um raro cunho de nobreza. Pelos seus formosíssimos jardins circula sem cessar uma multidão compacta, que na vária linguagem me faz lembrar a bíblica Torre de Babel. Em pleno bosque de variegado colorido levanta-se a grandiosa estação termal, a cujas águas miraculosas todos tecem hinos de sentido agradecimento e em que se disputa quase em titânica luta, a hora de poder fruir-lhe os salutares efeitos. Porfiam as sumptuosas casas de recreio na excelência da sua música, na delícia das suas atracções, na delicadeza e puro gosto das suas instalações, no primor dos seus serviços, reclamados incessantemente por uma sociedade gentil e elegante que se agita e desloca através desta paradisíaca vila, que o poético Ave acalenta e beija. Um parque surpreendente de beleza, com a sua ampla avenida, por onde luxuosos automóveis conduzem o cosmopolismo turístico, atravessando em larguíssima Ponte o rio encantador que centenas de graciosos barquinhos percorrem em uma extensão de milhares de metros, constitui o grande e universal centro de atracção. Tudo ali é admirável, sedutor, atraente: o matiz e seus relvados; o perfume entontecedor das suas flores; a profusão do seu arvoredo; a amplitude dos seus arruados; o bem-estar e o conforto das suas edificações satisfazendo os mais exigentes; a sua iluminação feérica; o seu majestoso casario; os seus jogos e as suas inúmeras diversões. Sinto-me pequeno perante tanta magnificência e a minha alma curva-se reverente em religiosa admiração por aquele bom povo, pelos filhos benditos de tão formosa terra, que, agindo como se fora uma só força, um ser único, um único idealizador, uma só alavanca motora, sem desinteligências, sem discórdias, sem egoísmos, sem vaidades, servindo com todo o zelo, com toda a lealdade, com todo o fervor a mesma causa, à qual tudo sobrepõem, conseguiram realizar o ideal da terra onde a gente se curva de corpo e espírito. E tudo isto se passa no decorrer de uma noite escura, que me deu um sono profundo, do qual, me desperta em sobressalto, alta madrugada, o som agudo do sino do campanário.

FONTES:

Livros: “Actas de sessões da Vereação de Guimarães”
Livros: “Actas da Assembleia de Freguesia de Caldelas”
Livro: “Actas da Junta de Turismo da Estância Termal das Taipas”
Livro: “Localização das Instalações Definitivas da Universidade, parecer nº 2”, Comissão Instaladora da Universidade do Minho, Junho 1975
Livro: “Ephemérides Vimaranenses”, João Lopes de Faria, 1933
Jornal: “Notícias de Guimarães”, jornalista que assinava com “Z”