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A vaidade narcisista
Sexta-feira, Julho 9, 2010

No dia 10 de Junho, de todos os anos, e “enquanto houver Portugal” – parece-me que há um cântico religioso que contém esse verso – “enquanto houver Portugal”, como ao divino interessasse a divisão por estados da humanidade; ao divino interessará, por certo, que na humanidade, que veio para salvar, não haja divisões, estados, fronteiras e tudo o mais que inventaram para que a divisa “dividir para reinar” perdure por todos os tempos e até aos fins dos tempos. Dizia que no dia 10 de Junho de todos os anos são condecorados e elevados a cidadãos com comendas, aparentemente não encomendadas, todo o tipo de pessoas que, de relevante para o país, parece contribuíram com a sua modesta e elogiosa actividade profissional, cumprindo tão-somente a obrigação que a todos devemos exigir num país que quer continuar a fruir do nível de vida próximo dos nossos vizinhos europeus.

Todos os anos criámos comendadores à mesma velocidade que criámos reformados milionários que para isso pouco contribuíram.

E este povo amorfo e cabisbaixo, de costumes permanentemente em lume brando, não se revolta por nada; nem no 25 de Abril. Se não fossem os militares, a resistência estaria para sempre condenada e limitada a um pequeno número de “heróis” para quem os princípios valem mais que o “estômago”.

Os princípios de não calar – porque a liberdade de expressão nem para os do poder existe; os princípios de contestar – porque há sempre alguma coisa a melhorar; os princípios de não subserviência a qualquer poder instalado – o poder corrompe, principalmente os espíritos; os princípios de dar – implica um esforço do património individual de cada um; o principio da humildade – afinal somos todos iguais, nem mais ou nem menos iguais que outros.

Se há muitos e muitos mesmos que não merecem as condecorações, há outros que merecem as homenagens, condecorações e muito mais.

Quando se homenageia um homem, principalmente quando essa homenagem quer lembrar as qualidades mais nobres que se podem encontrar num ser humano – o homem solidário, o homem bom, o homem que faz e fez sacrifícios pelos outros homens – há um princípio inderrogável a seguir: o centro da festa, dos festejos, das comemorações, terá de ser o homenageado; e toda a festa deve girar à sua volta. Só assim se dignificam os homenageados.

Eu sei que um homem bom não quer ser homenageado. O homem bom é assim por que o impõe o princípio inscrito no coração de cada homem, sendo uma imposição transcendente à sua vontade e já existente no seu ser.

Transformar uma homenagem a um homem bom numa manifestação que redundou numa exibição narcisistica, sem qualidade e conteúdo, qualifica quem as prepara e lidera.

O homenageado merecia muito mais: mais pompa; mais circunstância; mais protocolo; mais conteúdo organizativo; merecia discursos e não um discurso curto e desestruturado; merecia testemunhos; merecia calor; merecia agradecimento. Enfim, merecia muito mais do que lhe poderiam dar alguns jovens directores da cooperativa, mais preocupados com a sua evidência do que com a clarividência do homenageado.

A vaidade, agora menos, ainda é um pecado grave.