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A vaidade do Poder
Quarta-feira, Setembro 8, 2010

Como a ordem do dia são os gastos do Estado, seja ele o “estado” de Lisboa ou o “estado” que se encontra “espalhado”, ou melhor dito, descentralizado nas autarquias, a propósito e a despeito, não encontro razão plausível para a “mania” das inaugurações e, muito menos, para a autêntica propaganda que se encontra, sem excepção, afixada por esse país fora. É verdade que vivemos na era da comunicação; a ideia de Roland Barthes de que o mundo é uma aldeia, já é um dado apreendido e consumado por todos. No entanto, comunicação nunca pode ser confundido com propaganda.

Aprende-se na disciplina de história que a propaganda é e era usada pelos estados autoritários para manter a ordem, a disciplina, a unicidade do sistema político e para o culto da personalidade. Por aí se explica a ausência de imprensa livre e plural e a que existia, as informações a publicar eram e são filtradas por censura prévia.

Em democracia e num estado apelidado de direito, exige-se que a propaganda de estado não seja permitida. São muitas dezenas de milhões de euros que se gastam, por ano, em propaganda. Cartazes, com origem no estado, pagos por todos nós,a anunciar que, “pensamos em si”; “e para o seu bem”; “um concelho em movimento” e por aí adiante, são pura propaganda e não dizem absolutamente nada.

Não deixa de ser propaganda as inaugurações que se fazem de qualquer obra, por mais pequena que seja, no local mais recôndito deste país.

Inaugura-se um balneário, uma repintura, um arrelvamento, um chafariz, a colocação de ladrilhos. Inaugura-se o inaugurado; colocam-se placas alusivas ao acontecimento; escreve-se nas placas expressões ridículas como “sendo o presidente da câmara o sr dr.”; “sendo presidente da junta o sr eng..ou o sr. Arquitecto” e mais…e mais…que dão o reflexo exacto do nosso provincianismo bacoco. O pior é que nós não éramos assim.

O estado novo, o Salazar, o expoente máximo da propaganda, como se disse, característica relevante de comunicação de um estado autoritário, fazia algumas inaugurações, nunca ví nas escolas primárias da região qualquer placa alusiva à inauguração, e nessas placas, escrevia-se, por exemplo: “inaugurado pelo Sr. Ministro da Justiça”. E mais nada.

Reparem na diferença substancial espelhada neste pequeno exemplo: o estado novo, cultor das personalidades, omite o nome do ministro da justiça que inaugurou o edifício. O estado de direito democrata resultante do 25 de Abril, faz questão de inserir o nome do autarca, ministro, governador civil, secretario de estado e outros circunstantes, nas placas; e mais…o que é ridículo, não falta o epíteto profissional acompanhar o nome do inaugurante. Não percebo como o Presidente da Câmara de Braga, há 35 anos, continua a ser engenheiro. Parece que seria mais correcto chamar definitivamente ao Mesquita Machado, Presidente da Câmara Mesquita Machado do que Eng. Mesquita Machado.

Mas a diferença negativa entre o procedimento de um regime totalitário e um regime democrata reside no seguinte: enquanto naquele regime, totalitário é certo, havia sentido de estado e sentido de função; no actual regime dito democrático: nem há sentido de estado nem sentido de função: há propaganda e promoções individuais há custa de um esforço colectivo do país que são os impostos com os quais pagamos todas as vaidades intrínsecas dos arautos do poder.