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A Terra Onde a Lua Fala
Quinta-feira, Setembro 18, 2008

A Festa da Fraternidade conta apenas com três anitos de idade mas começa a impor-se no cenário do verão da Vila.

Reduzida ao figurino de dois dias, melhor seria dizer, duas noites, a festa dá mostras de querer ocupar um vazio nos muitos fins-de-semana que sobram depois das festas a S. Pedro.

Sou do tempo das verbenas no jardim do coreto e das muitas iniciativas levadas a cabo no parque e que constituíam um pólo de atracção de residentes e de não-residentes, convidados a sair de casa nas noites de canícula e a usufruírem dos espaços públicos na companhia de música diversa, quantas vezes escutada de cornetas penduradas nas árvores.

Sou também do tempo em que no ringue se viviam jornadas desportivas memoráveis, concursos entre equipas de jovens que arrastavam outros jovens para assistirem aos espectáculos, enchendo as bancadas e pintando a paisagem de cores alegres e de risos francos e puros.

Recordar esses tempos nem é um momento kodak, nem assomo de nostalgia – é o que dá reflectir sobre a animação que falta, é o resultado de pensar sobre o vazio que ficou depois que o ar condicionado entrou nos nossos hábitos e substitui a rua; é pensar sobre os novos hábitos do consumo que troca os espectáculos ao ar livre por outros em recintos fechados que tresandam a fumo e vapores de álcool.

Não tenho saudades do passado. Tenho ambições sobre o futuro e o presente.

Como disse um dos nossos grandes poetas, o mundo pula e avança e o tempo de hoje não pode ser vivido do mesmo modo do tempo do passado.

As Taipas não podem passar os dias a carpir lágrimas sobre o que já foi ou sobre o que podia ser mas não é. Mais, as Taipas não podem reivindicar o estatuto de centralidade e nada fazer, ou pouco fazendo, para que os vizinhos reconheçam naturalmente esse estatuto. A centralidade não se decreta, nem se exerce contra a vontade dos parceiros. A centralidade legitima-se através da oferta de soluções que respondam aos problemas e necessidades das populações.

Ao congregar a vontade dos comunistas e simpatizantes do partido residentes à volta das Taipas, a Festa da Fraternidade assume a característica de ponto centrípeto e recupera, sem imitar, as noites de verão que celebrizaram “a terra onde a Lua fala”, na bela definição de Ferreira de Castro, um homem e um escritor homenageado na festa.