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A profissão docente…
Domingo, Janeiro 15, 2017

Procurei nos meus papéis um texto para acabar o ano em beleza, melhor dizendo, para iniciar 2017 com esperança. Descobri que este escrito em setembro de 2010 permanece atual, no geral, mas está algo errado, no particular, principalmente, no que se refere ao final. Dizia eu:
“Ser professor é uma profissão complexa e qualquer dia não há quem queira seguir a carreira, dada a enorme burocracia em que estamos mergulhados (e já não falo da “pancada” que governo e pais dão a torto e a direito para desabafarem dos males que os afligem e que não têm nada a ver com a classe em questão). Há papéis para tudo e para nada, para fazer isto e aquilo, e, por vezes, até perdemos a vontade de dar aulas. Entre a papelada contam-se os planos de aula que até devem existir (como tópicos num papel, como meros apontamentos na mente, como dois sarrabiscos numa folhinha de memorando – páginas de livros, palavras-chave) … para que não se perca o fio à meada, mas também por uma questão de disciplina, pois só assim se conseguem cumprir os famigerados programas ao longo daqueles 90 minutos estipulados, principalmente quando «o cota é cá uma seca!». Mas o plano propriamente dito é necessário quando a aula é assistida (e quando não é para guardar no dossiê e poder ser apresentado ao avaliador, isto se o professor quiser candidatar-se ao Muito Bom / Excelente) e é obrigatório quando é preciso ser substituído por um colega (os professores também adoecem e têm filhos e têm vidas particulares), porque as faltas são altamente lesivas para a avaliação dos docentes. Enfim, fomos do oito para o oitenta e quem se quer baldar, balda-se e ponto final. Há sempre maneira de dar a volta.

Por uma questão de defesa pessoal, comecei a escrever o dito plano para depois o ler e procurar cumprir, mas nem assim… Tudo depende da meada que começo a desenrolar e do entusiasmo que puser no ato: se quero fazer um novelo para começar um trabalho ou apenas um emaranhado de fios, talvez … para o gato brincar. Para mim, ensinar tem o mesmo sabor do ler e do escrever e, se hoje já sei obrigar o pensamento a não se deixar enredar por meandros apaixonantes – «Devem sempre seguir-se as pistas dos alunos» diziam-nos em estágio!- ainda caio muitas vezes na armadilha e perco-me. Porém, quando se tem um professor do tipo de um Vitorino Nemésio, perdoem-me a imodéstia, porque do mestre apenas me pretendo comparar ao seu «se bem me lembro» com que iniciava a palestra e aos seus «bem, como ia dizendo… já não sei muito bem, mas podemos acabar o programa por aqui… pois», tudo é permitido e os alunos não dormem nas aulas nem incomodam os outros nem são indisciplinados.

Ensinar é cativar. Cativem os alunos, surpreendam-nos e todos nós, professores e alunos, vamos ser, certamente, recompensados.”

Tudo continua muito certo com uma ressalva seis anos e meio depois: Como se cativam os alunos de 2017? Como se pode surpreendê-los, quando são eles que nos apanham com atitudes e comportamentos impensáveis?

Vou tentar, nesta pausa letiva ver se ponho a imaginação a trabalhar para ser a minha vez de os “chocar”. Depois… dir-vos-ei qualquer coisa.

Um bom 2017!