A Política e os Políticos
Sexta-feira, Abril 3, 2009

A distância entre os deputados da nação e os eleitores que os elegem, tem merecido nos últimos tempos várias abordagens na comunicação social, nos blogues, em análises de comentadores políticos ou mesmo em conversas particulares.

Na maioria das situações, tais abordagens têm epicentro nos maus exemplos dados pelos deputados, que com o seu comportamento minam a seriedade e a confiança que os portugueses neles depositam e desprestigiam e descredibilizam a instituição de poder democrático Assembleia da República.

São habituais nestas abordagens a conclusão de que: por um lado a culpa é dos partidos políticos – e esta definição deixa de imediato implícito que são todos sem excepção – devido ao carreirismo que promovem e aos seus interesses meramente políticos e partidários. Por outro, um exagerado número de deputados e distantes dos cidadãos que os elegeram.

Juntamente com o diagnóstico, são também habitualmente apresentadas as soluções salvadoras: a redução do número de deputados e a introdução de círculos uninominais.

Não deixa de ser curioso que estas teses, defendidas de forma mais consciente e conveniente por uns ou mais inconscientemente por outros, não só vão ganhando espaço na opinião pública como vão de encontro às pretensões dos dois partidos mais representados na Assembleia da República, e que têm mostrado vontade em alterar a actual lei eleitoral, ou seja o PS e PSD.

Considero no entanto que esta análise global é uma inequívoca mentira porque mete tudo e todos no mesmo saco. Numa análise mais cuidada concluiremos facilmente que não é verdade que todos os partidos e todos os deputados tenham o mesmo comportamento, que existem deputados que cumprem com rigor e empenho as suas funções de representantes das regiões por onde são eleitos e outros que efectivamente não justificam os votos que os elegeram, concluiremos ainda que existem partidos que fazem das suas propostas eleitorais e dos seus princípios políticos a “bíblia” da sua actividade parlamentar e outros que após as eleições propõem e votam o contrário do que defendiam anteriormente.

Também me parece evidente que a introdução de círculos uninominais vai essencialmente contribuir para uma maior bipolarização entre os dois partidos que têm alternado entre si o poder, PS e PSD, e colocar em causa a representatividade dos partidos menos votados e que na verdade se têm revelado mais próximos dos cidadãos e mais dinâmicos na defesa das suas regiões.

Com os exemplos de jogos de poder e de interesses a que assistimos permanentemente entre o PS e PSD, estou convicto de que esta bipolarização seria um grande contributo para acentuar o défice democrático e para a possibilidade de uma coligação tácita de interesses políticos e partidários entre PS e PSD que em nada beneficiariam o país, as regiões e as suas populações.

Como tal, não creio que a resolução dos problemas de credibilização e prestigio da Assembleia da República passem por estas alterações. Creio muito mais que a solução está nas mãos dos portugueses, a eles cabe a avaliação de quem justifica a confiança do seu voto e quem não o merece.

Vem tudo isto a propósito de um artigo que o meu amigo Dr. José Luís Oliveira, escreveu no Jornal Reflexo do mês de Março.

Escrevendo sobre um comunicado emitido pelo PCP em que desafiava os responsáveis locais do PS e PSD a explicarem publicamente aos taipenses as razões dos seus partidos para chumbarem duas propostas que diziam respeito às Taipas, diz o Dr. José Luís Oliveira que “há pessoas eleitas pela lista do PS para a Freguesia de Caldelas que nem sequer são militantes desse partido… que nenhum desses membros tem assento no parlamento e muito menos influência sobre os deputados da nação”.

Efectivamente, aqui está um exemplo de como as atitudes e comportamentos dos deputados são contrastantes. Enquanto o deputado Agostinho Lopes, eleito também com os votos dos taipenses, formulou na Assembleia da República propostas que vão de encontro às pretensões das Taipas, os 9 deputados eleitos na lista do PS pelo círculo de Braga e como tal também com os votos dos taipenses, alhearam-se destas propostas e dos interesses dos taipenses.

Não ficava mal aos responsáveis locais do PS contactarem estes deputados e saberem as razões que justificaram o voto do seu grupo parlamentar e sem dúvida que esta atitude seria muito mais séria politicamente que a acusação de que tudo não passa de demagogia pura. São exactamente este tipo de procedimentos que descredibilizam a política. Tentar fazer-nos crer que existe um partido nacional, outro concelhio e ainda um outro local, que são um só quando dá jeito ou três partes distintas quando é conveniente, não é fazer política seriamente.

Entre outros exemplos desta conveniência, encontrámo-la quando em finais de 2006 se reuniu o secretariado do PS Guimarães, alguns deputados nacionais eleitos pelo distrito de Braga e os elementos da candidatura do PS à Junta de Caldelas, para anunciar a construção da ligação da via rápida ao Avepark ou quando em Dezembro de 2007 os deputados do PS na Assembleia de Freguesia acompanharam os deputados nacionais na visita ao Centro de Saúde das Taipas. É lamentável que esta unidade partidária já não exista quando se trata de explicar votos contra os interesses das Taipas.

E descredibilização dos políticos aumenta à medida que vamos percebendo como ser socialista, com cartão ou sem cartão, tem vários benefícios neste concelho. Não sendo necessário citar nomes, pois como diz a sabedoria popular “não é preciso ir a Roma para ver o Papa”, basta deitar um olhar atento por várias empresas e entidades vimaranenses como por exemplo a Fraterna, Sol do Ave, Tempolivre, Vimágua… Ou até aqui na nossa região taipense, Turitermas, Avepark, Centro Social… Para percebermos claramente o poder de influência do PS.

É pena que, como demonstra a votação das propostas sobre as Taipas, essa influência já não exista quando se tratam dos reais interesses da nossa vila, pois a existir ficariam a ganhar as Taipas e os taipenses.

P.S – Porque, como dizia alguém que muito me ensinou e já por cá não anda “a verdade é uma só e nunca podem ser duas verdades opostas” e porque conhecendo e sendo amigo do Dr. José Luís Oliveira, acredito que foi por lapso de memória e não por inverdade premeditada que escreveu: “a CDU tem andado a reboque da candidatura do PS… anda agora preocupada com os negócios menos transparentes levados a cabo pela nossa Junta quando tinha sido o PS a levantar essas questões antecipando-se à CDU”. Em nome da verdade, esclareço que a questão da carrinha foi levantada no blog do PCP/TAIPAS em Março de 2007, e posteriormente pela CDU na segunda sessão da Assembleia de Freguesia do mesmo ano.