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A Pegada Virtual
Segunda-feira, Fevereiro 17, 2020

Aposentada, pensei que ia ter tempo para não fazer “nada”. Qual quê? Tenho os dias todos ocupados e ainda me levanto à mesma hora- 7.30h- para abrir a casa e tomar um café, o das 8h. Continuo a ser inimiga do pequeno-almoço, sempre fui, que só me sabe bem por volta das 10.15 horas. Vícios de professora! Coincidia com o intervalo grande. Depois volto para a cama para preguiçar e para cumprir ordens médicas- estar na posição horizontal o máximo de tempo possível que não ultrapassa as 11h, num dia fora do normal. Nos outros é bem mais cedo.

Uma das ocupações que adquiri foi a de consultar e utilizar o Facebook e o Messenger para conviver com “novos” amigos, para me informar (é melhor do que um jornal com tanta cusquice) e, até, para encontrar primos de cuja existência não suspeitava. Mas a principal razão é a diversão. Divirto-me a valer com o que escrevem e, principalmente, com os convites que recebo diariamente de pessoas que me pedem amizade. E então homens ao engate é mato, perdoem-me a expressão, mas já não sou professora. Alguns na fotografia postada até são bem apessoados, resta saber como serão os estafermos reais.

Não sei como há pessoas que transformam o Facebook num confessionário e esquecem que, depois de partilhada a foto ou a informação, ela se torna pública e permanece na nuvem, por muito secreta que seja a conversa. E, aqueles que publicam na própria página não querem privacidade, pelo contrário. Querem mostrar o que são ou não são. E dão ótimas indicações aos ladrões e criminosos de todos os ramos sobre o que têm, onde moram, quando estão ou não em casa, o que fazem as crianças quando não estão na escola, que clubes frequentam, enfim, não esquecem nenhum pormenor. Alguns até dizem o que tomaram ao pequeno-almoço, ao almoço e o que vão comer ao jantar. A propósito, hoje vou comer “leitão da Bairrada”. Não custa dizer e muito menos postar. Quem quiser que acredite!

Horroriza-me particularmente a exposição das crianças colocada pelos pais ou por eles próprios, porque têm o seu site, apesar de não terem idade, mas a máquina é estúpida e não sabe. E depois os pais vão à escola proibir a publicação de notícias nos jornais ou em sites escolares, para proteção dos jovens que não se preocupam em proteger em casa e na Internet. Uma foto de uma criança despida na praia é publicada pelo progenitor, a entrega de um prémio escolar não pode ser publicada para proteção dos jovens. Proteção de dados! Uma valente treta! Hoje em dia, alguém (a quem não dou nome) sabe o que fazemos, comemos, bebemos a toda e qualquer hora do dia e da noite. São tantos os dados virtuais que a sua junção deixa a nossa pegada (está na moda a palavra) em tudo quanto é lado. Até as compras do supermercado sabem onde as fazemos e quanto gastamos. E mesmo que não queiramos a fatura, tudo vai acabar na nuvem, porque temos os cartões das lojas que oferecem isto ou aquilo. A nossa vida é um livro aberto desde que a Informática se apossou de tudo: fazemos o IRS online, temos o E-fatura, enviamos as leituras da eletricidade, pagamos as contas por débito direto ou cartão Multibanco, as consultas dos hospitais, os concertos e teatros a que vamos, a nossa vida está toda plasmada na Internet. Até o telemóvel diz onde andamos. A propósito lembro-me de um dia estar a subir a Rua dos Clérigos no Porto e ouvir um homem a dizer ao telemóvel, presumo que fosse à mulher, que estava na Avenida da Liberdade em Braga. E o danado ainda me piscou um olho. E se a mulher mandasse investigar a origem da chamada?

Se estamos tão expostos, porque é que alguns teimam em dar mais e mais informações?

E já não falo dos falsos perfis, do phishing, do cyberbullying… a que estamos todos sujeitos que isso dava pano para mangas e estas já estão bem compridonas.