A nossa primeira moeda, símbolo do poder
Quinta-feira, Fevereiro 16, 2017

Moeda de bronze proveniente da Citânia de Briteiros, mostrando a efígie de Augusto no anverso e o símbolo da caetra no reverso.

Emitidas para permitir o funcionamento de um sistema que é para nós, hoje em dia, quase natural, as moedas sempre foram utilizadas como representação do poder, transmitindo uma mensagem ideológica.

Como é sabido, nem sempre tivemos uma economia monetária. Ainda que, no final da Idade do Ferro, há pouco mais de dois mil anos, a sociedade e a economia no atual Norte de Portugal fossem já muito mais complexas do que nos séculos anteriores, não se utilizava moeda na transação de produtos. As poucas moedas recolhidas antes do início da época romana, nos finais do século I antes de Cristo, ou são moedas mais antigas que se perderam em época posterior ou, circulando num período mais antigo, não eram vistas propriamente como dinheiro, mas como um objeto exótico curioso, ou relativamente valioso.

Ao empreender a última fase da conquista da Península Ibérica, as “Guerras Cantábricas”, entre os anos 29 e 19 antes de Cristo, o estado Romano acaba por introduzir a circulação monetária através das próprias legiões. Os representantes do poder romano, detentores de cargos simultaneamente militares e políticos, vão cunhar uma emissão monetária “especial”, em bronze, utilizada para pagar o soldo aos legionários. São conhecidas entre os arqueólogos como “moedas da caetra”, porque mostram, no reverso, uma representação de uma caetra, o pequeno escudo circular utilizado pelos guerreiros indígenas no Noroeste, como noutras zonas da Península. Tanto que, quando se integravam nas legiões romanas coortes de guerreiros nativos, conhecidos como auxilia, ou tropas auxiliares, estes soldados eram por vezes referidos como caetrati, por estarem munidos com estes característicos escudos.

Mas estas moedas são também conhecidas pelo nome de “moedas de Carísio”, pois terá sido Públio Carísio, legado propretor de César Augusto na Lusitânia entre 26 e 22 antes de Cristo, comandante de várias legiões, uma das personalidades que esteve por trás desta emissão monetária, como indicam alguns exemplares onde figura o nome deste governador provincial.

São estes numismas um exemplo de propaganda política, recorrendo a uma simbologia marcadamente nativa. As estátuas de guerreiros, que fazem parte da iconografia da Idade do Ferro nesta região, e que se pensa representarem heróis divinizados, costumam exibir um escudo com uma característica decoração simétrica. Foi esta decoração que foi reproduzida no reverso destas novas moedas, que mostravam o rosto de Augusto no anverso. Haverá melhor meio de difusão de uma mensagem política que recorrer a um objeto acessível e manuseado por boa parte da população?

Subsiste a controvérsia acerca do local de cunhagem das moedas da caetra, para uns uma oficina de Lucus Augusti (Lugo), para outros um exemplo de cunhagem móvel, que acompanharia o comandante da legião. O certo é que foram recolhidos exemplares um pouco por todo o lado, destacando-se em Guimarães as pouco mais de dez moedas desta emissão recolhidas na Citânia de Briteiros. São, de facto, o primeiro exemplo de moeda cunhada no Noroeste e a primeira a circular pelos habitantes dos castros, quando já súbditos de Roma e de Augusto.