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A instituição da mentira
Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

No Portugal do pós-25 de Abril são diversas as tentativas de instituir a mentira e a falsificação histórica como verdades absolutas e irrefutáveis convenientes a quem se auto coloca no centro do mundo, no centro dos acontecimentos, reivindicando para si o lugar e a importância que os factos não admitem, negam e rejeitam.

Há na nossa história recente personagens que de tão cegas nem se dão ao trabalho de rever o que disseram no passado, do que fizeram, preferindo insistir na efabulação mesmo que ela ofenda os documentos e os testemunhos dos que partilharam espaços e eventos amplamente relatados pelos jornais da época que jazem nos arquivos e podem ser consultados.

São conhecidos os casos de políticos e partidos que imbuídos desse espírito criativo procuram insistir em inverdades, moldando acontecimentos recentes segundo as suas conveniências, escondendo posturas e atitudes assumidas e chamando a si o exclusivo da verdade. É assim por exemplo quanto ao 25 de Abril e ao processo revolucionário que se lhe seguiu; é assim por exemplo quanto aos acontecimentos político-militares do 25 de Novembro.

A mentira tem feito escola e seguidores.

A mentira é arma política de que alguns políticos usam e abusam. Mas uma arma que só tem tido curso e sucesso graças à cumplicidade de alguns contadores de histórias e órgãos da comunicação social e de jornalistas que aceitam fazer o frete, porque também eles não fazem o trabalho de casa consultando as bibliotecas, confrontando o antes dito com o agora dito, consultando fotografias e documentos autênticos.

Infelizmente, os portugueses aceitam sem reagir a facilidade com que os políticos mentem ao fazerem promessas irrealistas, absurdas, impossíveis de cumprir, porque acham que a mentira faz parte do jogo político e pior do que tudo isto, acham que todos os políticos mentem.

É evidente que a generalização sobre a capacidade de mentir dos políticos é profundamente injusta para os que não mentem nem fazem da mentira um meio para caçar simpatias e votos e, no limite, é argumento que serve apenas os mentirosos e quem os apoia, não sendo portanto nada inocente.

Se para ganhar eleições, se para satisfazer o ego dos egocêntricos é preciso mentir, então prefiro perder.

É por isso que leio com agrado o grito de revolta de um homem com quem concorri nas eleições autárquicas de 11 de Outubro, mas não posso dizer que conheça, porque ele como eu e muitos outros, felizmente, convergimos pelo menos neste ponto: para ganhar não vale tudo, não vale falsificar os factos ou distorcer a verdade, não vale usar meios e processos condenáveis.

Os tempos que vivemos são favoráveis aos habilidosos, aos sem prurido, aos que sobem e singram na vida ainda que à custa de valores, princípios e regras que se aprendem no berço e no convívio com os bons exemplos. Mas por isso mesmo mais valores têm os que recusam o fácil, recusam o óbvio, recusam o rebanho e a carneirada. Resta esperar que continuem coerentes, para que no futuro possam legitimamente apresentar o passado em abono das suas posições.

No fim de mais um ano e começo de outro, além do desejo de saúde e felicidades para todos, despeço-me com a esperança de mais higiene na vida política. A começar pela vida política local.