A efígie de Roma no Castro de Sabroso
Quinta-feira, Maio 2, 2019

Moeda de prata recolhida em 1878 no Castro de Sabroso. Coleção da Sociedade Martins Sarmento.

Na casa circular (…) appareceu uma moeda. O oxydo sobre o roxo, que depois de secco se faz branco, fez-me desconfiar que não era cobre. Não via cunhos nenhuns. Depois, limpando-a, começaram elles a apparecer em branco. Conclui que era chumbo. Para me desenganar quiz dobral-a. A moeda partiu bruscamente ao meio.” (Martins Sarmento, escavações de Sabroso, 18 de Julho de 1878).

Nem cobre, nem chumbo, mas prata. A única moeda registada no Castro de Sabroso, é uma moeda de prata, que mostra ainda a fratura que lhe foi acidentalmente infligida pelo seu achador, Sarmento. E, continuando a análise:

O verso é um busto, mas o cabello, ou o capacete (…) é um pouco extravagante. No reverso vê-se um cavallo tirando um carro, cuja roda se distingue bem. Ha o quer que seja em cima do carro mas o quê não é para olho nu. Em baixo ha uma legenda (…). Quiz lêr OMA; mas o O parece também Z. Veremos se o miscrospico faz milagres.” (Ibidem)

A leitura feita, a pedido de Sarmento, por Teixeira de Aragão, um dos pais da numismática portuguesa, veio clarificar a leitura deste denário romano, cuja cronologia de cunhagem se aponta para 179 a 170 antes de Cristo, segundo a interpretação mais atual de Rui Centeno. Embora seja considerada uma emissão “anónima”, ou seja, sem identificação da entidade familiar que a emitiu*, Aragão colocou a hipótese, meramente conjetural, de ter sido cunhada pela Gens Aurelia. Assume-se como correta a leitura de Aragão que, com ou sem “miscrospico”, conseguiu ver o que hoje ainda se conserva desta moeda.

No anverso a efígie feminina, extravagante, de facto, porque usa um capacete helenístico, representa muito provavelmente a personificação de Roma, embora vários autores a refiram como Pallas ou Atena, devido à inspiração grega deste motivo. Do lado esquerdo da efígie, o número X marca o valor facial da moeda. No reverso, uma figura de pé conduz uma biga, um carro puxado por dois cavalos, tendo por baixo a palavra “Roma”. De facto só mesmo uma observação muito cuidada, e os paralelos com outras moedas coevas, permite observar estes elementos, porque a moeda está muito erodida.

Que faz então esta moeda, dos tempos da República Romana, cunhada há mais de 2.100 anos, no alegadamente “puro” e “não romanizado” Castro de Sabroso? Sobretudo, quem diria que se fosse recolher um elemento com tão refinada simbologia e conteúdo gráfico no vetusto Sabroso… Não foi a única a aparecer. Muitas outras moedas foram recolhidas em Sabroso, mas à revelia de Sarmento e de outros arqueólogos, infelizmente.

Embora se possa equacionar que a moeda tenha ido ali parar pelas mãos de qualquer mercenário castrejo que tenha calcorreado o sul da Península naqueles tempos, sabe-se hoje que estas moedas republicanas em prata foram utilizadas, nomeadamente para pagamento de tropas, em períodos posteriores, particularmente já na época de Augusto. É, no entanto, sintomático que esta moeda tenha aparecido por entre a argamassa do pavimento de uma casa circular, o que pode não ter sido uma deposição acidental. Pois que mais apareçam.

* Na Roma antiga, as famílias da aristocracia romana agrupavam-se em linhagens ancestrais conhecidas como gens, gentes.