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A cidade orfã
Sexta-feira, Março 10, 2017

Incluo-me entre um conjunto de cidadãos vimaranenses cujas referências são predominantemente urbanas. Com isto não quero dizer que vivamos todos na cidade. Pelo contrário, há muita gente cujas referências são comuns às minhas que vive nas vilas, desde logo em Caldas das Taipas, mas também em áreas menos urbanizadas do concelho. Pelas conversas que tenho tido nos últimos anos, creio que partilho um sentimento generalizado: sentimo-nos órfãos.

Sentimo-nos órfãos, desde logo, por algo que expus na crónica anterior. Estas referências a que chamo urbanas são ideias e valores alinhados com o século XXI. E sobre matérias caras como habitação, mobilidade, energia, sustentabilidade ou alimentação (não é um tema excêntrico) não há um discurso articulado dos principais actores políticos. Muitas vezes não há sequer discurso. Como dizia há um mês, pelo contrário: as suas prioridades estão cristalizadas no século passado.

Tenho a perfeita noção de que Guimarães é um concelho particular. Dois terços da população vive fora da cidade e as políticas públicas devem levar isso em conta. Como se pode perceber por anteriores escritos neste mesmo espaço, sou bastante crítico do excessivo centralismo da visão da coisa pública, que afecta gravemente o país e afectou também as opções políticas para o concelho durante largos anos. O que aqui é advogado não é que as vilas e restantes freguesias sejam esquecidas ou menorizadas.

O que me parece, porém, que tem acontecido nos últimos anos, é o completo inverso desta lógica. Foi a cidade e as áreas mais urbanizadas que se tornaram órfãs de ideias políticas. E isto vale para a generalidade dos actores políticos. O que conhecemos são propostas pontuais de resolução de problemas concretos, mas muito raramente soluções mais estruturadas para responder aos constrangimentos que afectam a vida concelhia. Talvez o clássico discurso da Esquerda sobre os transportes colectivos seja a única excepeção.

No mais, não vemos sequer os actores políticos a perceberem os problemas que têm à sua frente. Por exemplo, como já aqui alertei, há uma grave crise de habitação a preços acessíveis. Sobre isto, nada ouvimos dizer. Também se vive hoje uma sangria generalizada do comércio mais tradicional, das tascas às floristas (tentem comprar flores fora de um centro comercial…). Isto é algo que nos deve preocupar a todos? Seguramente. E o poder político não pode a isto ficar alheio.

Acrescento um exemplo que só à cidade diz respeito, porque a sua vitalidade já teve melhores dias. O Centro Cultural Vila Flor é inegavelmente um dos espaços mais importantes do concelho, não só pelo que significa para quem aqui vive, como pela sua capacidade de atracção de artistas e público externos. E no entanto, o centro cultural está localizado no topo de uma avenida que, tendo tudo para ser nobre, está em processo acelerado de morte, sobretudo na sua segunda metade, precisamente mais próxima daquele equipamento. É isto que torna a Avenida D. Afonso Henriques um local cada vez mais inóspito e simbolicamente longínquo. Mais uma vez, não temos uma palavra sobre isto.

Em ano de eleições autárquicas, talvez os programas eleitorais e a campanha que se avizinha, possam dar resposta a estas angústias. Estarei atento. Mas sem grande esperança.