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A “casa-urna” de Poza de la Sal
Quinta-feira, Janeiro 14, 2021

A “casa-urna” de Poza de la Sal

Conta-se que, num mesmo sítio arqueológico, localizado a poucos quilómetros da pequena povoação espanhola de Poza de la Sal (Burgos), foram identificadas cerca de trezentas peças idênticas a esta, embora apenas se tenham inventariado cerca de oitenta. Quem mencionou tão elevado número foi o arqueólogo Julio Martínez de Santa Olalla, célebre estudioso espanhol, falecido em 1972, e descobridor de boa parte destes curiosos elementos.

Desconhecemos se Santa Olalla foi o responsável pela dispersão de várias destas peças em diferentes museus, sobretudo em Espanha, mas sabemos que foi ele quem ofereceu à Sociedade Martins Sarmento, em 1934, o exemplar existente em Guimarães, proveniente, como as restantes, de Poza de la Sal.

Falamos do que normalmente se considera uma urna cinerária, destinada a conter cinzas resultantes da cremação de um, ou mais, defuntos. Esta função, no entanto, tem vindo a ser discutida, dada a sua morfologia e dimensões. É um pequeno bloco de calcário, esculpido em forma de casa e cavado no seu interior, que é, assim, oco. Mostra uma abertura no fundo, por onde se esculpiu o interior, e uma outra, mais pequena, no que aparenta ser a “fachada principal” desta minúscula casa. Esta face mais visível ostenta, além da pequena “entrada”, uma elaborada decoração onde se denotam alguns motivos de possível inspiração astral. Vemos assim uma meia-lua voltada para cima, sobre a qual se vê uma rosácea de seis folhas. Dos dois lados deste conjunto, vemos outras duas rosáceas.

Estamos familiarizados com estas decorações, mesmo no Norte de Portugal, embora mais particularmente em estelas funerárias de época romana. De facto, estas pequenas urnas de Poza de la Sal terão sido utilizadas entre os séculos I e IV depois de Cristo. Parecem ser, contudo, uma tradição cultural local, posto que não são habituais nos territórios envolventes da povoação que se diz ter sido a antiga Salionca, terra de sal, como também indica o nome atual do município castelhano.

Pode não ter sido propriamente uma “urna”, mas um pequeno monumento que seria colocado sobre a verdadeira urna, ou mesmo sobre uma sepultura de enterramento, hábito que se veio a generalizar com o passar do tempo.

A associação visual com uma “pedra formosa” contribuiu, em tempos, para reforçar a interpretação funerária dos balneários dos castros. Mas a semelhança é meramente morfológica, decorrente da figuração da nova casa dos familiares defuntos.

Uma de algumas peças que atribuem um carácter transnacional ao acervo do Museu de Martins Sarmento.