Vistas curtas
Quinta-feira, Maio 5, 2016

Há dias li o título de uma notícia e fiquei entusiasmado. Dizia assim: “CMG quer incentivar arrendamento”. Ando há anos a bater nesta tecla. De resto, ainda em Setembro escrevia neste mesmo espaço sobre o assunto. Alertava na altura para o “deserto” em que o centro histórico de Guimarães corre o risco de transformar-se, face à especulação em torno do preço das rendas, fomentado pelo aumento da procura (e da oferta) turística na cidade. Pensava, pois, ao ler o título dessa notícia, que talvez alguém com responsabilidade na autarquia tivesse reparado num problema, que começa a ser excessivamente óbvio para um número cada vez maior de pessoas, e estivesse decidido a actuar, finalmente. Pensava, pois. Mas estava enganado.

Bastavam uns poucos parágrafos dessa peça da Rádio Universitária do Minho para perceber que, afinal, ainda não foi desta que alguém em Santa Clara acordou para o tema. O que a câmara quer resolver é a questão de pessoas que procuram Guimarães por “temporada curtas, entre dois meses e um ano”. Fala-se, por isso, de estudantes e investigadores associados, em particular à Universidade do Minho. Nada do que realmente interessa e quem vive cá por mais do que “temporadas curtas”. Não retirando o mérito à iniciativa, pergunto-me como é possível haver no círculo do poder gente com vistas tão curtas que não perceba que este bloqueio é o sintoma de um problema maior e estrutural.

É inquietante que haja sensibilidade na Câmara Municipal para perceber que estudantes e investigadores que queiram instalar-se temporariamente na cidade têm dificuldades em encontrar uma casa, mas que não vislumbre que isso acontece porque o mercado de arrendamento em Guimarães está distorcido. Com preços inflacionados e uma concentração da oferta nas mãos de menos de meia dúzia de investidores que facilitam a subida constante dos preços, tornando cada vez mais impossível, para alguém em início de vida poder instalar-se num raio de cinco minutos do centro da cidade.

Um dia depois de ler esta notícia, saiu uma outra, no Público. Dizia assim: “A Câmara de Lisboa vai colocar no mercado de arrendamento 24 casas no Bairro 2 de Maio, na Ajuda, naquela que será a primeira bolsa de fogos municipais destinada exclusivamente a jovens”. Semanas volvidas, era também anunciado a criação de mais 5.000 fogos municipais para arrendar a preços acessíveis para permitir o regresso das famílias de classe média ao centro da cidade.

Lisboa não é Guimarães e tem o problema de gentrificação bastante mais evidente, mas por cá os sinais são realmente preocupantes e só quem nunca procurou uma casa para arrendar no centro da cidade pode não perceber a dimensão deste assunto crítico. Mas o que o exemplo de Lisboa mostra é que é possível ter políticas públicas para responder a este problema, garantindo que o centro das cidades não se torna espaço exclusivo de turistas ou das classes altas. Em vez disso, por cá continua a anunciar-se com pompa mais uma estrada e mais uma obra, como se ainda estivéssemos no século XX. O paradigma do governo das cidades mudou. Mas parece que ainda ninguém foi à autarquia dizer isto.

Jornalista do Público