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União de facto e casamento
Segunda-feira, Dezembro 2, 2002

Entre casamento e união de facto existe uma diferença essencial. Enquanto que no casamento há uma doação total, gratuita, definitiva, exclusiva, ao próprio cônjuge, na união de facto não há doação total, nem gratuita, nem definitiva, nem exclusiva.

– Na união de facto não há doação total.
A alma não se dá totalmente, porque a vontade (faculdade da alma) mantém suspensa a sua escolha definitiva: esta situação introduz na pessoa dos dois partners uma divisão interior, uma vivissecção do ser e uma falsificação do próprio acto sexual.
O acto sexual que, em si mesmo (constituindo a união física mais completa), deveria exprimir a união interior mais completa, torna-se um acto falso. De facto, no contexto da união de facto, o acto sexual não pode cumprir a sua vocação significante: deveria significar união total e, ao contrário, não pode significá-la.
A união de facto enquadra a maravilhosa experiência do amor, que deveria ser uma experiência de totalidade, numa perspectiva de parcialidade.

– Na união de facto não há doação gratuita.
Hoje em dia está a perder-se o sentido da gratuidade, enquanto que o amor é essencialmente gratuito.
Infelizmente, até no casamento se vive muitas vezes um amor não gratuito: mas isso depende da imaturidade das pessoas.
Na união de facto, pelo contrário, a não-gratuidade é constitucional: isto é, faz parte da própria experiência. De facto, os dois parceiros subentendem com frequência esta disposição de base: “Eu experimento-te, para ver se me agradas”. E até quando há a disposição “e tu experimentas-me para ver se agrado a ti”, falta o amor gratuito, pois não há respeito de um para com o outro: a realidade é que um experimenta o outro. Só que as pessoas não se experimentam: podem experimentar-se as coisas (uma máquina, um vestido, um par de sapatos…), mas nunca se podem experimentar as pessoas.

– Na união de facto não há doação definitiva.
A doação conjugal é, por si mesma, definitiva. Não se pode dizer a uma pessoa: “Amar-te-ei por algum tempo”, “amar-te-ei por alguns anos”, “amar-te-ei se tudo correr bem”.
O amor dado com reserva não é amor logo à partida. E não é suficiente afirmar: “Pode ser que este amor dure para sempre”. Ora o amor verdadeiro não se baseia num “pode ser…”.
Na união de facto uma pessoa dá-se à outra com este espírito: “Vejamos como irá acabar. Se a experiência falhar, volto atrás”. Põe-se num contexto de provisoriedade aquilo que, por sua natureza profunda, é definitivo.

– Na união de facto não há uma doação exclusiva.
Os companheiros dizem, implicitamente, ao próprio partner: “Pode ser que tudo corra bem e que tu sejas o único partner da minha vida. No entanto, se não correr tudo bem, “trocar-te-ei”.
A intenção dos companheiros é profundamente imoral, pois considera as pessoas como “coisas de intercâmbio”. Mas cada pessoa é única no mundo, irrepetível, e, por isso, não objecto de intercâmbio.
Quem escolhe uma pessoa como cônjuge (ou seja, com a escolha mais empenhadora que existe sobre a terra, depois da escolha de Deus) escolhe-a para sempre.

– Podem acrescentar-se outras razões em desfavor da união de facto como “não respeitadora” do ser humano.
– Os companheiros ou não querem ou querem filhos.
Se não querem filhos, contradizem um fim essencial da sexualidade, que é a procriação, correndo o risco de viver a sexualidade simplesmente como “puro prazer”.
Se querem filhos, inserem os filhos numa comunidade conjugal que não dá garantias de durabilidade, enquanto que os filhos, para crescerem equilibradamente, têm necessidade de uma família em que reine um amor ternurento, sólido, duradouro.
– Além disso, os companheiros não tomam devidamente em conta a comunidade civil ou religiosa em que estão inseridos e com a qual devem manter uma relação de direitos e deveres, não só como pessoas, como indivíduos, mas como casal.
(Continua)

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